Pensar Enlouquece. Pense Nisto.



A descoberta do mundo

A aurora é um mijo sangrento despejado sobre a grande cidade.
Pelas ruas cospe-se a fumaça dos automóveis,
raivosa como pus espremido da ferida.
Os homens - acéfala multidão - saem para o mundo;
o vento chicoteia suas faces de pedra,
seus sovacos fedem de medo dos outros.
Apressam seus passos, precisam ignorar cães e mendigos
para chegarem pontualíssimos ao trabalho.
Mesas, clipes, carimbos datados ou não,
máquinas de calcular humanas ou não.

O escritório sem ar-condicionado embriaga-me de luz e calor.
Os minutos arrastam-se no relógio da parede,
e o sol, que tolda meus sentidos e amolece meu corpo,
é um gato quente e sonolento espreguiçando-se dentro de mim.
Lá fora, o mundo grita como a boca petrificada de um quadro,
invade meus pensamentos como alarme disparado de carro,
não me permite descansar durante o intervalo.
Em minha mesa o jornal dispara sua metralhadora diária:

"A menina saiu do carro buscava socorro para seu pai ferido no acidente vinte carros atropelaram-na seus restos foram encontrados num raio de 45 metros pesquisadores desenvolveram roupas que mudam de cor pipocas para microondas lançarão em breve torradeira transparente reuniu durante seu governo 600 milhões de dólares de caixinha para campanha à presidência não se amedronta com fantasmas ou bicho-papão mas tem pesadelos em que é seqüestrado a jovem tinha dezoito anos foi espancada estuprada estrangulada com um cadarço de tênis jogada em uma cova rasa sonhava ser bailarina"

Estreou hoje o filme que eu queria (preciso) ver.

Deus Deus meu deus,
fomos feitos à tua semelhança? Tua semelhança?!
(Senhor, salvai-nos de nós)
Os tomates que comprei apodreceram.
Não vou comê-los. Jogá-los-ei no lixo. Haverá quem os coma.

Não quero mais escrever mas é preciso.
É preciso escrever com urgência,
com fúria, com ânsia de vômito,
escrever como quem morrerá amanhã,
escrever porque há milhares de coisas acontecendo lá fora,
escrever como se ainda tivesse esperanças.
Esperanças que foram nos sendo tiradas.
Esperanças, o melhor de nós.

Hoje esperamos sentados.
Hoje contemplamos com apatia e cinismo a merda desta sociedade,
enquanto o futuro com suas mãos fechadas aproxima-se de nós.
Hoje o jornal sobre a minha mesa ri, gargalha,
sabe que amanhã novas notícias esgotarão suas edições.

Mas a vida continua.
É preciso ignorar esse calor, trabalhar
e ganhar o pão maldito de cada dia.
É preciso abandonar os sonhos de criança,
professor, artista, revolucionário
para ganhar o maldito pão de cada dia, a maldita televisão de cada dia,
a maldita roupa de grife de cada dia, a maldita gasolina,
o maldito seguro contra roubos, o maldito aluguel,
o maldito imposto, a maldita e sagrada estabilidade
de cada dia.

Quantos sonhos ainda deixaremos para trás?
Nossas asas estão cobertas de pó.

Somos responsáveis,
não quebramos a cara. Nossa existência é acomodação,
e os dias são sucessões de desacontecimentos.
Quanto tempo mais deveremos jogar fora
bebendo em taças de falso cristal o néctar que fizemos azedar?
A vida é rascunho definitivo,
e no entanto vivemos como se fosse possível renascer.
(nossas asas estão cobertas de pó)

Senhor, gostaria de poder agradecer-Te por ainda comer,
por ainda não estar contaminado,
por ainda acreditar (acreditar, acreditar)
em alguma coisa que não sei exatamente o que é,
por ainda ter a capacidade de sentir revolta e tristeza
e ser lúcido o suficiente para pensar em suicídio
mas nunca me matar.

Mas o coração é voraz
e exige respostas que sejam definitivas.
Recusa-se a sorrir de resignação,
aguardando com inexistente paciência pelas lições da maturidade.
E como é difícil acreditar, senhor, como é difícil.

Carrego dentro de mim sonhos e sentimentos que morrerão comigo,
momentos que não existem em nenhum lugar mais
além do meu coração:
pôr-de-sol, brisa no rosto, conversa com amigos, sorriso de mulher.
Instantes que valeram por uma vida inteira,
rastro de estrelas num céu poluído e aparentemente vazio.

Entretanto, este é o nosso mundo: tartarugas mutiladas e sem casco,
versos inacabados no papel, balas perdidas procurando alvo,
cacos de vidro espalhados pelo chão;
mas caminho descalço e esperançoso porque sei que, apesar de tudo,
vale a pena prosseguir.
(vale a pena prosseguir)

- Vida, você não vai se livrar tão fácil de mim.
"Ira, transforma-te em mim em perdão, já que és o sofrimento de
não amar
" - Clarice Lispector
(P.S.: este poema faz parte integrante de um livro inédito que escrevi, intitulado Aprendizado: Rascunhos Definitivos)

Escrito por Inagaki às 21h53
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