Pensar Enlouquece. Pense Nisto.



Meninos Eu Vi

Lázaro Ramos e Leandra Leal, protagonistas do segundo longa-metragem de Jorge Furtado.
O Homem Que Copiava (Teatro Arthur Rubinstein - 09/06/2003)

Quando recebi o convite para a pré-estréia de O Homem Que Copiava, já imaginava que viria coisa boa por aí. O cineasta gaúcho Jorge Furtado dirigiu e roteirizou alguns dos melhores curtas-metragens brasileiros de todos os tempos, como Barbosa, Ilha das Flores e Esta Não é a Sua Vida. Depois, ao ser cooptado pela Rede Globo, não perdeu a mão, participando de algumas das melhores produções televisivas dos últimos tempos, como as minisséries Agosto, Memorial de Maria Moura e Luna Caliente, e os seriados Comédias da Vida Privada, Os Normais e Cidade dos Homens.

Não admira, pois, que a minha expectativa fosse das mais altas, ainda mais tendo em vista que a estréia em longa-metragem de Jorge Furtado, a comédia Houve Uma Vez Dois Verões, é um daqueles típicos filmes que entram de cartaz sem grande alarde, mas que acabam causando furor ao serem descobertos pelo grande público, e acabam estourando nas bilheterias na base do boca-a-boca. Pena que foi pessimamente lançado em São Paulo, e pouca gente teve a oportunidade de assisti-lo. Lembro que assisti a Houve Uma Vez Dois Verões em uma promoção da rede Cinemark, na qual filmes brasileiros eram exibidos a R$ 1,00 o ingresso. A sala lotou, e a vasta maioria dos espectadores era formada por estudantes. Quando a sessão terminou, tive a oportunidade de ouvir adolescentes elogiando o filme. Um deles chegou a repetir a frase-clichê: "nem parece que é cinema nacional".

Sinceramente espero que aquele garoto assista a O Homem Que Copiava, porque terá a chance de conhecer mais um belo trabalho de Jorge Furtado. Quem conhece a filmografia pregressa de Furtado reconhecerá neste longa alguns traços característicos que permeiam toda a sua obra: as maquinações do acaso que combinam e recombinam vidas (vide "Estrada", episódio do longa A Felicidade É...), a presença das ruas e esquinas de Porto Alegre quase como um personagem da história (como no curta Ângelo Aa escultura kitsch de um anjo, um binóculo, um soneto de Shakespeare e sorte, muita sorte.

Além de ser cinema de entretenimento da maior qualidade, um aspecto que merece ser ressaltado em O Homem Que Copiava é o fato dele parecer, sim, filme brasileiro. Mas não no sentido pejorativo, consolidado ao longo de anos por obras de péssima qualidade técnica e roteiros crivados de palavrões e cenas de sexo tão naturais quanto peitos de silicone. O longa de Jorge Furtado descreve, sem cabecismos sociológicos, o zeitgeist de um país no qual felicidade pessoal e desejo de enriquecer (independentemente de juízos sobre o certo e o errado, de resto valores tão relativos como a própria subjetividade) são fomentados como aspirações naturais de uma sociedade composta por Ratinhos, Silveirinhas e Fernandinhos. O final do filme, isento de moralismos tacanhos e desprovidos de sentido, jamais seria possível em um estúdio de Hollywood (Furtado é o criador, não o juiz, dos personagens que cria). Quem quiser compreender a parafernália tupiniquim daqui a vinte anos terá, pois, em O Homem Que Copiava, uma boa idéia de como (des)funcionava o Brasil neste começo de século.

Escrito por Inagaki às 20h49
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Teoria Maquiavélica do Amor

John McLane e patroa, curtindo devidamente o happy end de Die Hard.

Pouco depois de sair da sessão de Matrix Reloaded, me lembrei de uma velha tese que escrevi há tempos, e que regurgito agora: a Teoria Maquiavélica do Amor. Por favor, sigam a bolinha pulando e acompanhem meu raciocínio.

A vida às vezes cansa, principalmente quando se em uma cidade que é uma máquina de fazer estressados, como é São Paulo. Paulistanos parecem estar sempre com pressa, vivem correndo como se estivessem fugindo de algo, apressados como o coelhinho da Alice no País das Maravilhas. Não é possível manter esse ritmo ad eternum. É por isso que às vezes sou obrigado a recorrer ao ópio cinematográfico, apertando a tecla "pause" do meu cérebro e esquecendo deste mundo louco em filmes que a gente assiste como quem come Chokito, no maior dos descompromissos.

Poucas coisas são mais eficazes na arte de anestesiar as neuras da vida moderna do que os filmes de Hollywood. Não à toa, o cinema norte-americano está cumprindo a ameaça de Pinky e Cérebro, de dominar o mundo. Porém, não pretendo discutir agora os méritos artísticos dos blockbusters da Gringoland. Quero, apenas, compartilhar com vocês a minha tese: filmes hollywoodianos apostam no que eu chamo de Teoria Maquiavélica do Amor.

Homem-Aranha, durante um bem-vindo interlúdio romântico com Mary Jane. Recordemos filmes como Duro de Matar, Velocidade Máxima, O Vingador do Futuro, Inferno na Torre, A Múmia: carros batem, prédios explodem, pessoas morrem, toda uma gama de desgraças perpassa nossos sentidos em aproximadamente duas horas, e tudo isso para quê? Para que o filme acabe em um beijo apaixonado. Ou seja, o fim (no caso, o happy end amoroso) justifica os meios. Como se os roteiristas piscassem os olhos pra gente, nas entrelinhas, afirmando que toda sorte de desgraças humanas e materiais na telona se justifica em nome do tal do Amor. Porque nós, incautos espectadores, precisamos de um justo quinhão de diversão lobotomizante, coroada, invariavelmente, com a cereja de um beijo enamorado no final.

E assim, todos vivem felizes para sempre, ao menos até que seja rodada a próxima continuação.

Na vida real, Lois Lane teria morrido soterrada, assim como Trinity jamais regressaria a Zion. Ou não. Afinal de contas, vai saber. O tal do Amor não deixa de ser uma loteria; às vezes é possível acertarmos na Mega Sena, por que não? E, do alto da mais improvável das improbabilidades, em meio ao dilúvio de bilhões de pessoas perdidas neste mundo vasto mundo, não é possível encontrar alguém que ature nossas idiossincrasias e pneuzinhos na cintura, e que ame a gente assim mesmo, mesmo sem possuirmos os poderes de Peter Parker ou as curvas da Charlize Theron? Este mundo, felizmente, é maluco e cheio de possibilidades.

Em tempo: Feliz Dia dos Namorados! ;)

Escrito por Inagaki às 23h54
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