Pensar Enlouquece. Pense Nisto.



Histórias reais - I

Zé Gangó, se dependesse de sua mãe, teria se tornado padre. Como filhos tendem a contrariar o desejo dos pais, Zé Gangó (apelido de José Cupertino) não fugiu à regra. Depois de abandonar a escola, foi parar em uma profissão que considerava "enrascada", mas que aprendeu a gostar. Tornou-se o coveiro-chefe de Porto Seguro, na Bahia. Após anos e anos enterrando os outros, precaveu-se: construiu sua própria "catacumba" há cerca de cinco anos. Afirma: "Quando eu morrer não quero enfeite, nem luto e muito menos choro. Só vela e o povo bebendo cachaça a noite toda. Ela fala que eu sou doido. E eu digo que se der, pra botar um pouquinho na minha boca que eu bebo e agradeço".

Será que a labuta diária convivendo com a morte inspirou Zé Gangó a ter nada menos que vinte e cinco filhos (18 com a primeira mulher, três com a segunda e mais quatro com a "particular")? Sabe-se lá. Zé bebia o dia todo, e dizia que se parasse de tomar suas cachaças, morria. Ainda era obrigado a lidar com a polícia, que costumava matar e trazer os corpos para o cemitério dois, três dias depois, já podres. Depois que reclamou com o juiz da cidade, a polícia parou de abusar do coveiro e passou a trazer os próprios presos para fazer os enterros.

Foi candidato a vereador. Em um comício, irritado com as gozações à sua profissão, não pestanejou e disse: "agora que sou candidato, vocês ficam desfazendo de mim. Mas não há de ser nada. Todos aqui quando morrerem vão ter de passar pela minha mão". A entrevista de Zé Gangó, publicada em maio de 1993 no Jornal do Sol de Porto Seguro, me fez reco 80?' Pura ignorância audiovisual. No canto superior direito do écran, lá estava escrito 'em directo'. Tratava-se de 'Domingo é Domingo' (o nome podia ser bem melhor: por exemplo, 'Domingo é Terça-Feira' ou 'Domingo é Sábado')".

Nocturno 76 - "Charles Aznavour tem ar de parolo. No entanto, aquela figura triste - não arrisco melancólica - guarda uma expressão de amizade distante, quase esquecida, e de boatos mal divulgados. Cada cena com ele entra como se estivesse para ficar eternamente esquecida. Passando por ela, ficamos tristes por olhar para aqueles olhos, tristes".

Mil e uma pequenas histórias - "O Antes, o Durante e o Depois eram companheiros inseparáveis, mas um dia o Antes e o Depois zangaram-se, não se sabe bem porquê, e foi cada um para seu lado, deixando o Durante triste e abandonado. O Durante procurou-os por todo o lado sem descanso, mas o Antes mudara-se para um lugar a que chamou Passado e o Depois para outro a que chamou Futuro, e tão longe ficaram um do outro e de forma tão equidistante se posicionaram que o Durante desistiu finalmente de os procurar. A minha avó contou-me esta história que sempre recordarei como se fosse hoje".

Blog de Esquerda - "Naquela manhã, quando Fernando Pessoa abriu a porta do seu quarto, deparou com 25 dos seus semi-heterónimos, acotovelando-se no corredor. O grupo, sob a liderança do Barão de Teive (Bernardo Soares ficara em casa, deprimido), trazia num papel uma lista de exigências, um rol de queixas, um manifesto. Em causa, reclamavam eles, estava o protagonismo excessivo dado pelo mestre aos «três do costume»: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Por que razão não tinham eles (um Vicente Guedes, um José Pacheco, um António Mora) igual tratamento? Por que raio de critério teria o mestre decidido criar heterónimos de rdar a placa incrustada no cemitério de Inúbia Paulista, cidade onde meus avós maternos descansam:

"FUI O QUE TU ÉS, TU SERÁS O QUE EU SOU"

Escrito por Inagaki às 03h47
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Histórias reais - II

Roger, 20, lateral recém-promovido dos júniores, sabe que aquele jogo é a chance da sua vida. Porém, foi incumbido de uma tarefa das mais indigestas: marcar D'Alessandro, craque talentoso e marrento do River Plate. Seu time, o Corinthians, empata por um a um. O resultado elimina a equipe brasileira da Taça Libertadores da América.

45 minutos do primeiro tempo. D'Alessandro acaba de fazer uma firula desconcertante com a bola bem na frente de Roger. Geninho, técnico do Corinthians, está tão (ou mais) nervoso quanto o seu time. A um metro do campo, ordena ao seu jogador:

- Pega, pega, pega!

Qual um cachorrinho, Roger obedece cegamente às palavras de seu treinador. Acerta um pontapé desajeitado em D'Alessandro: cartão vermelho. Em entrevista coletiva dada após a eliminação corinthiana, Roger declara, cabisbaixamente:

- Não quis dar pontapé. Não estava nervoso. É difícil explicar. Estava ansioso para ajudar o time. E acabei atrapalhando...

Roger, 20, sabe que ficará marcado por esse lance pelo resto de sua carreira. Futebol é uma caixinha de Pandora.

Escrito por Inagaki às 03h38
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Histórias reais - III

José Vieira de Melo Neto não suporta mais a espera. Tarsila Gusmão, sua filha, e Maria Eduarda Dourado, colega de escola, ambas com 16 anos, estão desaparecidas desde o dia 3. Depois de terem saído com amigos para passear de lancha até o Pontal de Maracaípe, em Pernambuco, elas se desencontraram do grupo e não foram mais vistas desde então. Apesar de uma campanha espalhada por todo o Nordeste, com divulgação em TVs, rádios e internet, ninguém sabe do paradeiro delas. Muito pelo contrário, diversas ligações com trotes foram recebidas pelo Disque-Denúncia. Cansado de acompanhar impotente as buscas da Polícia pelas praias do Litoral Sul, José Vieira conversa com Aníbal Moura, delegado e chefe da Polícia Civil:

- Doutor Aníbal, eu preciso fazer alguma coisa.
- Se isso vai lhe fazer bem, faça.

José Vieira, cujo hobby é fazer trilhas de rali, pega a sua moto e, ao lado do amigo Roberto, começa a percorrer estradas vicinais e entradas de cana em toda a área desde Porto de Galinhas até Serrambi. É movido por uma única certeza na cabeça: a necessidade aflitiva de descobrir se Tarsila ainda estava viva.

Na tarde do dia 13, a verdade. Os corpos das duas adolescentes já estão em avançado estado de decomposição. José reconhece Tarsila graças a uma pulseira prateada em meio aos despojos, presente que ele mesmo havia dado à filha. Dois dias depois, declara em entrevista a uma rádio:

- Gente ruim tem em todo canto, todo dia se mata. A esperança... Minha esperança agora é de achar quem fez isso. Porque minha filha, ninguém mais acha não.

Escrito por Inagaki às 03h25
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Uma pequena nota: os comentários dos posts anteriores sumiram. É provável que tenham ido parar na mesma dimensão dos guarda-chuvas perdidos e canetas Bic usadas até o fim da carga. Contudo, cumpadi Fábio Sampaio já está trabalhando para resgatar os comments abduzidos. Realmente admiro a abnegação que o Fábio possui, ao se esforçar tanto (e tão arduamente) em continuar oferecendo à comunidade blogueira um serviço de qualidade totalmente gratuito, mesmo sendo obrigado a aturar muitas críticas e reclamações apesar de não receber um níquel sequer por seus serviços. Eu, por exemplo, confesso que minha paciência em manter o Spam Zine já está no limite...

Em tempo: Pensar Enlouquece alcançou hoje a casa de 100.000 page views em menos de nove meses de existência. Obrigado a todos que freqüentam este cafofo virtual!

Escrito por Inagaki às 01h00
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Matrix Reloaded: pisando no freio

Somos humanos. Portanto, estamos sempre sujeitos a erros. Pior: dos mesmos erros de sempre. Por exemplo, misturar uísque com tequila na festa de fim de ano da firma, ou contar detalhes de sua vida amorosa pregressa para a namorada atual. Por que cargas d'água repetimos as mesmas tolices, quando há tantos erros novos a serem cometidos? Sei lá. E não me perguntem o porquê: não sou dos mais privilegiados em matéria de inteligência.

A DEUSA Monica Bellucci: não carece de explicação. Um exemplo clássico: jamais crie excesso de expectativas. Se você marcou o primeiro encontro in loco com aquela sua amiga virtual que você conhece apenas pelo nickname Ruiva-Loki, não vá esperar por uma clone da Nicole Kidman. Da mesma maneira, não leia um livro da Fernanda Young imbuído pela esperança de descobrir a Flannery O'Connor brasileira. O fomento de ilusões vãs é diretamente proporcional às probabilidades de se quebrar a cara.

Nesse sentido, a crítica de Ana Maria Bahiana a Matrix Reloaded foi recebida por mim como um alerta de valioso teor didático. Ana Maria, uma das melhores jornalistas culturais do Brasil, não mediu palavras ao bombardear a nova produção dos irmãos Wachowski: "Tirando algumas seqüências genuinamente espetaculares, graças a novíssimos, trabalhosos e engenhosos efeitos especiais, Matrix Reloaded é um dos filmes mais chatos, pretensiosos e confusos dos últimos tempos".

Não sou dessas pessoas que se pautam pela crítica dos jornais para escolher meus programas cinematográficos. Dois breves exemplos: os críticos enalteceram Através das Oliveiras, e eu dormi no meio do filme. Depois, desceram a lenha em As Pontes de Madison, e não pestanejo em afirmar que este longa de Clint Eastwood é uma das mais belas produções da última década. No entanto, não dá para não temer quando Ana Maria Bahiana relata que um dos personagens de Matrix Reloaded, Merovigian, gasta simplesmente doze minutos ininterruptos recitando um monólogo-cabeça. Tal cena me remete a um dos filmes mais modorrentos da História: uma xaropada francesa que vi numa das Mostras de Cinema Internacional de SP, da qual fiz questão de esquecer o título. Do filme, contudo, recordo o seguinte diálogo, que encerrava com chave de latão a discussão interminável de um casal em crise:

- Você não gosta mais de mim, e eu me sinto como uma banheira vazia.
- Então vou encher você agora com o meu amor (e os espectadores, de azia).

Sim, assistirei a Matrix Reloaded ainda esperançoso por encontrar uma continuação digna do filme original. Mas, desta vez, pisando no freio das expectativas que certamente aumentariam a probabilidade de eu me sentir como um conviva a quem serviram Sonrisal em taça de Dom Perignon.

Escrito por Inagaki às 02h52
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