Pensar Enlouquece. Pense Nisto.



Amor ingrato

Amor se explica?

Um torcedor de futebol apaixonado como eu vive em constante sofrimento. E, por Deus, como dói essa forma de amor incondicional. Principalmente quando se torce por um time que dificilmente chega a decisões e não possui o mesmo poderio financeiro dos "grandes", como é o caso do meu Bugrão. É caso de amor incorrespondido: devo ter desenvolvido uma LER em minha garganta, de tanto gritar, berrar, vibrar e vociferar com gols perdidos, juízes incompetentes, erros de passes, pênaltis cobrados para fora, impedimentos mal marcados.

Ontem ouvi, por uma rádio na Web, a mais um jogo do meu Guarani. E, ah, que amor mais ingrato. Quando, aos 47 minutos do segundo tempo, ouvi o locutor da rádio dizendo que um gol eminente do meu time havia sido perdido por questão de milímetros, não pude me conter: soltei todos os palavrões da língua portuguesa e mais alguns inventados no calor da raiva, da frustração e da decepção profunda. Me senti, sei lá, como um adolescente apaixonado que vê sua amada platônica beijando um rapaz do terceiro colegial. Ou como um atleta que tropeça a 10 metros da linha de chegada, e testemunha, estatelado no chão, um outro cara vencendo a corrida que estava nos seus pés. Por tão pouco, por tão pouco.

O amor é ingrato e egoísta, e o destino dos amantes é de sofrimento. Mais uma vez meu time não correspondeu às esperanças que me foram fomentadas por uma boa campanha no Campeonato Paulista. Mas é isso mesmo: promessas de amor, meu bem, não valem nada, e se dissipam, voláteis, no etéreo território das ilusões. Torcedor de futebol é uma raça triste como a carne.

Eu poderia ser flamenguista, corintiano ou gremista, e comemorar, ano sim, ano não, a conquista de algum campeonato. Porém, amor não se escolhe: simplesmente acontece. Vá lá: por não ter sido mal acostumado com a fartura de títulos, cada vitória conquistada, cada gol feito, cada avanço na tabela do campeonato me é motivo de júbilo. É o lado positivo de não se enveredar pelo caminho do óbvio, ao adotar, de todo coração, uma agremiação que não pertença à confraria dos "grandes".

Sim, você pode achar que é uma grande bobagem eu sofrer tanto por causa de um acontecimento tão fútil quanto o Campeonato Paulista ("E a guerra no Iraque? E o Fernandinho Beira-Mar? E as criancinhas, quem vai olhar pelas criancinhas?"). Mas, oras, o amor não é uma lente de aumento que amplifica cada mínimo detalhe do cotidiano? E, sei lá, eu não posso me martirizar de ciúmes porque encontrei a foto de um ex-namorado escondida no meio de um livro? Ou ser punido com uma greve de silêncio porque esqueci a data de celebração do décimo quarto mês em que nos conhecemos? Ou brigar horas a fio no telefone por um estopim tão besta quanto um olhar de viés que dirigi à prima da minha namorada? Mon ami, quando adentramos o território da paixão, a lógica cartesiana dança rumba e sai de fininho.

Enfim: sou feliz, e muito feliz por possuir o privilégio de torcer para o Guarani (amar sempre vale a pena). Mas, por Deus, como amar pode ser dolorido.

Escrito por Inagaki às 00h34
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Trocando de biquini sem parar
(publicado originalmente no Spam Zine 058)

Em tempos dantes navegados, 31 de março era celebrado na escola como o Dia da Revolução (sic) de 1964, e éramos obrigados a pintar bandeirinhas do Brasil e a cantar o Hino Nacional no pátio do colégio. Com as mãos encostadas no peito, soltávamos nossas vozinhas agudas em uníssono, repetindo mecanicamente uma letra hermética, como se isso fosse capaz de despertar ufanismo em alguém. Oras, é como esperar que um moleque de 11 anos vá criar gosto pela leitura depois de ser obrigado na escola a ler Iracema ou Eurico, o Presbítero. Mas, no meu caso, o Hino soava mais nonsense ainda. Porque, na maior das convicções pueris, eu cantava a seguinte pérola: "Elvira do Ipiranga às margens plácidas". Passei anos intrigado com o misterioso papel de Dona Elvira na proclamação da independência, especulando se não era um pseudônimo da Marquesa da Santos.

Anos mais tarde descobri uma expressão, aparentemente criada por Paulo Francis (na época do primeiro Pasquim), para definir essas ocasiões em que a cabeça da gente viaja longe e recria maionesicamente letras de música: "virundum". Inspirada, bobviamente, pelo fatídico verso inicial de nosso hino, que até hoje causa lapsos em patriotas incautos e jogadores da Seleção, ao cantarem coisas como "verás que um FILISTEU não foge à luta" ou "do que a terra MARGARIDA". Há uma expressão mais contemporânea: "dibikini". Originada por um velho hit do grupo Brylho, Noite do Prazer: "na madrugada vitrola rolando um blues/ tocando B. B. King (ou: trocando de biquíni) sem parar".

Os americanos também possuem um termo para isso: "mondegreen". Para que vocês vejam como a história é antiga, a expressão data de 1954, quando a jornalista musical Sylvia Wright confessou, em um artigo, que havia entendido "lady Mondegreen" no verso de uma canção que dizia "and laid him on the green". No site Kiss This Guy é possível encontrar mais de 2.500 exemplos de letras involuntariamente modificadas. Eye of the Tiger, a música-tema de Rocky, o Lutador, tornou-se "Ivan the tiger". Love in an Elevator, do Aerosmith, virou "loving an alligator". E daí pra pior.

Aqui no Brasil, o "mondegreen" mais hilariante que conheço foi descrito por Mário Prata. Uma amiga dele confessou que, ao ouvir Ciranda Cirandinha, entendia que o verso "o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou" significava "o amor de Tumitinha era pouco e se acabou". Para ela Tumitinha era o diminutivo carinhoso de Tumita, um garoto japonês que se decepcionava demais toda vez que se deparava com a volatividade de suas paixões. Quando descobriu que o tal garoto não existia, sofreu pra burro. Parece que ela faz análise até hoje.

Uma grande "especialista" em virunduns é minha amiga Patricia Correia, a Sra. Pedro Vitiello. Que, ao cantar o tema do Sítio do Pica-Pau Amarelo, em vez de "bananada de goiaba, goiabada de marmelo", cometia: "banana a dar de goiaba, goiaba a dar de marmelo".

Outra amiga minha que repassou exemplos ótimos de virunduns é Maria João Amado, a mãe da Júlia. Repasso a palavra a ela:

"Eu tenho 2 músicas que juropurdeus que ouvia diferente: uma é 'Como Nossos Pais'. Naquela parte do 'contando o vil metal', eu entendia 'cortando fio dental'. :) E a outra é uma música de Luiz Gonzaga que diz: 'Luiz respeita Januário.../ Respeita os oito baixos do teu pai'. Eu entendia, e cantava: 'respeita os 'ovo baixo' do teu pai'. KKKKKKKKKKK

Tem uma outra historinha bonitinha de meu irmão mais novo. Um belo dia saímos em família para lanchar na McDonald's recém-inaugurada (isso foi em 87), e Jonga, meu irmãozinho, do alto dos seus 7 anos falava que os Beatles isso, e os Beatles aquilo. Meu Big Brother (irmão mais velho), já de saco cheio da falação, intimou:

- Você conhece os Beatles?
- Claro. conheço muito.
- Ah, é? então diga pelo menos 1 música deles.
- Fácil. Tilóptium!
(todos juntos) - O quê?
- Tilóptium!
- E que música é essa?
- Aquela... Tilóptium yeah, yeah, yeah..."


Vai, confessa aí: qual foi o pior "virundum" que você já cometeu? Compartilhe suas recriações musicais no espaço dos comentários...

Escrito por Inagaki às 08h56
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Hoje é o último dia de votação no iBest. Clique aqui, vote em Pensar Enlouquece, concorra a um carro 0 Km e faça um Inagaki feliz. :)

Escrito por Inagaki às 08h52
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Bloglândia

- Paulo Polzonoff, jornalista paranaense responsável por um dos melhores e mais polêmicos blogs brasileiros, escreveu em 19 de fevereiro um post sobre a guerra que rendeu nada menos do que 88 comentários. Em meio à enxurrada de elogios, ofensas, bajulações, xingamentos e reações passionais catalisadas por seu texto, Polzonoff resolveu lançar o concurso "Seja Pacifista, Mas Não Seja Burro", que premiará com livros e CDs os melhores (e menos bóbvios) artigos a favor da paz. O detalhe saboroso do concurso é o índex de palavras e expressões que terminantemente não podem ser utilizadas nos textos. Clique aqui para conhecer o regulamento e saber como participar desta promissora peleja.

- Todo blogueiro que possui em sua página um sistema de estatísticas está cansado de saber que uma das maiores fontes de visitantes é a horda de internautas em busca de fotos de mulheres desnudas (acreditam que toda semana alguém vem parar aqui procurando por fotos da Playboy da Lidia Brondi ou da Luciana Vendramini?). Ciente disso, Cristiano Dias criou uma página de redirecionamento para qualquer pessoa que chega ao seu weblog oriundo de uma busca com a palavra "nua". Em uma palavra: genial.

- Ainda no site do CrisDias, descobri a existência da singela página da Samara Comenta, "empresa" criada com o objetido de suprir a necessidade que muitos blogueiros carentes possuem em ver os seus posts comentados. Acesse djá!

- Há exatamente um ano, o Evasão de Privacidade subiu no telhado. Cliquem aqui e aproveitem para cobrar do Zé Vicente a volta de quem não deveria ter ido.

- Falando em blogs finados, Cecilia Giannetti recém-encerrou as atividades do seu Notas Gonzo, e explica seus motivos a Alexandre Matias do Trabalho Sujo. Por sorte, continua publicando seus textos na Web: seu texto sobre a zorra que assolou o Rio de Janeiro é imperdível.

- E que o Sub Rosa (viu, Meg?), quando retornar (o mais breve possível) ao ar, traga consigo o Taperouge a tiracolo.

- Pensar Enlouquece é o blog nota 10 da coluna do Gravatá desta semana. A casa penhorada agradece. :)

Escrito por Inagaki às 00h19
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Tempo
              aos meus avós

Ponteiros são nada;
tempo não se ata a números.
Tempo é bicho sem Deus,
livre, deliciosamente livre.
Tudo é a sua morada.

Tempo cura tudo,
tempo não tem cura.
Sem como nem porquê
tempo vai passando.
Tempo, até quando?

Tempo é o verde do broto,
tempo é o verde do mofo.
Tempo é aprendizado e esquecimento.
Tempo é menarca e menopausa.
Tempo é menos.

Tempo é o sangue cicatrizado na pele.
Tempo é a dor de um parto.
Tempo é um filme cujos atores morreram.
Tempo é computador ultrapassado.
Tempo é a chuva e o rosto em silêncio.

Tempo é carro preso no engarrafamento.
Tempo é o pó na fotografia dos pais.
Tempo é a fúria de dois corpos na cama.
Tempo é o som das folhas libertando-se do galho.
Tempo, serpente afirmadora da vida.

Tempo passa passa tempo,
passa rápido passa lento.
Sem trilhos, corre como trem.
Sem asas, voa feito avião.
Sem pena, vai.

Tempo é aceitação.

Escrito por Inagaki às 18h24
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Fala que eu te escuto (e, às vezes, respondo)

Os amigos já conhecem meu jeito relapso de ser, sempre procrastinando as coisas. Por exemplo, e-mails. Via de regra, meu winchester está constantemente abarrotado com Torres de Pisa formadas pelas mensagens acumuladas para responder. Não é por desdém ou descaso, eu juro: simplesmente não consigo administrar decentemente o meu tempo pessoal. Já tentei dar um jeito nesse lapso imperdoável de minha personalidade, mas, por enquanto, o pau continua torto (sem duplo sentido).

O mesmo se aplica aos comments deste blog, que freqüentemente são mais interessantes que os próprios posts, vide as contribuições que visitantes como Nelson Moraes, Marcelo Valetta, Enio Martins, Andrea Tedeschi, Júlia Hansen, João Antônio Bührer, AnaP, Denis Klein, Majarti, Aline Limãozinho e a menina do Mustang (só para citar alguns dos mais presentes) deixam por aqui. Sem esquecer, é bóbvio, dos internautas que contrariam a máxima de que apenas blogueiros lêem blogs, e ainda possuem sanidade suficiente para não sucumbir a este vício. Para vocês (e também para os leitores mais tímidos), um abraço especial: Artur, Cynthia, Elacoelha, Donna, Marlos, cumpadi AL-Chaer, Ivan, Rod, Lakshmy, Leandro de Floripa, Kato, Paulo E. Miranda e Cy, a mocinha de Taubaté. :)

Eu sei que jamais conseguirei ser tão atencioso como cumpadi Matusalém Matusca, que responde cada comentário um por um. Mas enfim, os posts a seguir são um começo.

Escrito por Inagaki às 15h41
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Lucy comentou, a respeito do texto "O Amor e a Miopia":

"Meu pai é oftalmologista.

Sendo filha de oftalmologista eu descobri cedo que teria que usar óculos (sim, porque TODOS os oftalmo usam - eles fazem a faculdade só de trauma - e passam a quase-cegueira pra gente, filhos inocentes), mas por resistências próprias (vaidade?), também não uso o tempo todo, só pra ler e ver TV ou tarefas afins. Uma das vantagens da hipermetropia. São 4 graus mas dá até pra dirigir sem eles.

Acho que o amor pra mim é assim, também: ajustável. Eu guardo na caixinha pra não me tornar dependente. Mas, da mesma forma que uma noite na internet deixa o meu mundo "menor" quando eu levanto da cadeira e tiro os óculos, o amor deixa em mim rastros absurdos, que custam a sarar.

Fora de foco. Não tinha um jeito melhor pra explicar. Lindo, lindo. Agora já sei como justificar aqueles dias de fossa maior, quando alguém me perguntar: 'com licença, mas meu mundo está fora de foco. Perdi minhas lentes mais bonitas, as que não tinham preço'".


Clique na figura e visite o site da Associação Cultural Zero em Comportamento, de Portugal.Lucy, antes de mais nada: obrigado. Atrasadíssimo, eu sei (timing nunca foi o meu forte). Mas é que, quando leio comentários como o seu, me sinto plenamente recompensado por publicar meus garranchos por aí. :) Sobre o tal do amor, eu me identifico terrivelmente contigo, quando você diz que precisa guardá-lo na caixinha para não se tornar dependente dele. Nessas horas, sempre me lembro de uma passagem de Sandman, a HQ maravilhosamente roteirizada por Neil Gaiman, que diz: "O amor faz reféns. Ele entra em você. Devora tudo o que é seu e te deixa chorando no escuro. Por isso, uma frase simples como 'talvez a gente devesse ser apenas amigos' ou 'muito perspicaz' vira estilhaços de vidro rasgando seu coração".

Amor é um bicho esquivo e perigoso. Uma vez domado, deixa que a gente se apegue a ele. E a desgraça é essa: muitas vezes, assim que a gente finalmente se rende, não é que o filhodaputa foge, não deixa endereço nem telefone, e cavouca um buraco fundo no coração, daqueles quase incicatrizáveis? O amor, por ser a manifestação mais intensa da vida, é responsável pelas maiores alegrias e dores deste mundo. E aí, mon ami, é pegar ou largar: ou você opta por adotar uma postura contemplativa, renunciando a sentimentos maiores e contentando-se em observar complacente o espetáculo do mundo, ou se joga de cabeça no bungee jump das paixões, correndo o risco de quebrar a cara ou, até mesmo, de ser a pessoa mais imbecil e feliz da face da Terra.

Há óculos que incomodam. Mas também há aqueles que tornam o mundo tão bonito que compensam plenamente o seu vício.

Escrito por Inagaki às 15h40
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Ruy Goiaba, sobre a foto que ilustra o post Pequenas Confissões:

"Inagaki, isso é incrível! A foto comprova que você era um sósia daquele besouro japonês do desenho da Cobrinha Azul ('tuli-tuli-tulá, agora eu vou papar...'). Amplexos".

Ruy, o grande problema de sua afiada comparação é a analogia que algumas mentes sujas podem fazer com a trama do desenho, uma vez que a Cobrinha Azul freqüentemente assediava o Besouro Japonês porque desejava comê-lo (no sentido gastronômico). Cabe ainda explicar que na foto supracitada eu estava propositadamente fazendo um sorriso de mangá por fins meramente cômicos, e que a mesma não reproduz fielmente o rapaz bem-apessoado que sou. Feitos os esclarecimentos, posto abaixo minha foto e uma reprodução do Besouro Japonês para dirimir quaisquer dúvidas sobre apressadas comparações:



Escrito por Inagaki às 15h40
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E por falar no escritor argentino, segue um comentário de Cynthia em meu post sobre palíndromos:

"Cortázar - um dos meus preferidos - também adorava, sempre brincava de leve em contos - 'Atale, demoniaco Cain, o me delata' -, mas não sei se chegou a escrever algum 100% nessa base. Cê sabe de algum?"

Cynthia, Cortázar não chegou ao ponto de fazer como o Perec e escrever um texto totalmente palindrômico. Mas escreveu dois contos inspirados por palíndromos: "Distante", do livro Besta o meu colega Simius, elas o fazem para sacudir deste mundo o pó da rotina que certamente se imporia às nossas vidas se não fosse pela argúcia, sensibilidade, malícia e wit que só as representantes do sexo feminino possuem.

Mas que mulheres são complicadas, isso lá é verdade. Cito uma sábia afirmação de meu primo William: "mulher é bicho bão, mas dá muito trabalho". :)

Escrito por Inagaki às 15h39
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Eduardo Nasi escreveu, ao comentar o post "Grandes Livros Doentes":

"mas o final das cidades invisíveis é fantástico. concordo que se o viajante... fica aquém. mas o final das cidades invisíveis, por deus, não tem explicação. saca só:

'O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço'".


Sim, Nasi; assino embaixo, em cima e dos lados da sua adjetivação para o final de Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino: é fantástico. Mas quando eu enquadro o livro do Calvino na categoria de quase obra-prima, é por causa do meu conceito pessoal do que seja genial. As parábolas de Cidades Invisíveis são embasbacantes, prodígios da imaginação. No entanto, não narram uma história: apesar de abertas a infinitas conotações, são ensimesmadas em suas metáforas. Não ofuscam a magnitude da obra; simplesmente renunciam ao poder que um escritor possui de contar uma boa história, feito aquelas que nossos antepassados ouviam antigamente ao redor de uma fogueira.

Tento me explicar melhor: o meu senão a Cidades Invisíveis não está na linguagem, e sim na opção feita por Calvino em priorizar a forma e os jogos lingüísticos em detrimento da narrativa. Tenho um pé atrás a certas experimentações pós-modernistas: conhece aquela piada sobre as obras do Cinema Novo, em que os críticos diziam que o diretor era genial mas o filme era uma merda? Não é o caso de Ítalo Calvino, mas já li diversos livros deliberadamente escritos com a intenção de agradar a críticos e outros escritores, e que via de regra descambam em um hermetismo modorrento e babacamente pretensioso.

IMHO, obras-primas incontestáveis são aquelas que conseguem conciliar experimentação formal a boas histórias. Veja, por exemplo, O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar, que não se limita a tecer jogos de palavras fechadas numa concha cerebral. Junto às elucubrações metalingüísticas de Morelli, Cortázar narra com maestria as histórias de Maga, Horácio, Rocamadour, Traveler, Talita; são vidas fictícias que transcendem a condição de peças em um xadrez metalingüístico.

Escrito por Inagaki às 15h39
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Eduardo Nasi escreveu, ao comentar o post "Grandes Livros Doentes":

"mas o final das cidades invisíveis é fantástico. concordo que se o viajante... fica aquém. mas o final das cidades invisíveis, por deus, não tem explicação. saca só:

'O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço'".


Sim, Nasi; assino embaixo, em cima e dos lados da sua adjetivação para o final de Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino: é fantástico. Mas quando eu enquadro o livro do Calvino na categoria de quase obra-prima, é por causa do meu conceito pessoal do que seja genial. As parábolas de Cidades Invisíveis são embasbacantes, prodígios da imaginação. No entanto, não narram uma história: apesar de abertas a infinitas conotações, são ensimesmadas em suas metáforas. Não ofuscam a magnitude da obra; simplesmente renunciam ao poder que um escritor possui de contar uma boa história, feito aquelas que nossos antepassados ouviam antigamente ao redor de uma fogueira.

Tento me explicar melhor: o meu senão a Cidades Invisíveis não está na linguagem, e sim na opção feita por Calvino em priorizar a forma e os jogos lingüísticos em detrimento da narrativa. Tenho um pé atrás a certas experimentações pós-modernistas: conhece aquela piada sobre as obras do Cinema Novo, em que os críticos diziam que o diretor era genial mas o filme era uma merda? Não é o caso de Ítalo Calvino, mas já li diversos livros deliberadamente escritos com a intenção de agradar a críticos e outros escritores, e que via de regra descambam em um hermetismo modorrento e babacamente pretensioso.

IMHO, obras-primas incontestáveis são aquelas que conseguem conciliar experimentação formal a boas histórias. Veja, por exemplo, O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar, que não se limita a tecer jogos de palavras fechadas numa concha cerebral. Junto às elucubrações metalingüísticas de Morelli, Cortázar narra com maestria as histórias de Maga, Horácio, Rocamadour, Traveler, Talita; são vidas fictícias que transcendem a condição de peças em um xadrez metalingüístico.

Escrito por Inagaki às 15h38
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Taí um cartaz que tirou as palavras da língua de muita gente.
Imagem dos protestos contra a guerra no Iraque promovidos em Barcelona, Espanha, em 15 de fevereiro. Mais uma da série "Não carece de explicação" (mas, se precisar, clique aqui ou aqui).

Escrito por Inagaki às 14h16
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