Pensar Enlouquece. Pense Nisto.



Em tempo: vou viajar. Este blog entra em recesso (outro?) até domingo. Bom feriado para vocês, e juízo (ma non troppo).

Escrito por Inagaki às 22h25
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O convívio virtual tem dessas agradáveis surpresas. Adriana, essa mocinha-cartola "de onde coisas inesperadas podem sair", me presenteou com um belíssimo "fanArte" (estou até agora com os olhos boquiabertos). Recomendo fortemente uma visita ao seu metablog, no qual estão expostos mais peças insp na Web. Bem, é óbvio que uma ferramenta de utilização tão simples e acessível, não tardaria para ser desvirtuada (como mostra a enxurrada de "confissões de adolescentes" que inundou a bloglândia tupiniquim). Mas o fato é que há muita gente boa que sabe o que fazer com algumas idéias na cabeça e um teclado nas mãos: procure vasculhar a lista de links ao lado esquerdo deste post.

Mas tergiverso, tergiverso. O que eu quero na verdade é provar a minha incompetência em escrever um diário. Inspirado pela experiência do meu pai, que registrou passagens de sua adolescência em um caderno manuscrito (infelizmente extraviado em uma dessas mudanças de casa), comecei a escrever um diário há cerca de doze anos. Logo desisti, ao constatar que sou completamente incapaz de levar a sério uma tarefa dessas. No dia 6 de outubro de 1990, registrei a seguinte passagem da minha vida:

"Hoje eu consegui estalar os dedos pela primeira vez. Nunca me esquecerei deste acontecimento em minhas retinas tão fatigadas. Eu estava assistindo no Gugu a uma apresentação do Banana Split. Elas estavam mais peladas do que vestidas. Legal! Foi em Ibiúna. Fazia um dia quente pra dedéu. Entrei na piscina e fiquei com medo da minha orelha cair, mas ela não caiu. Maneiro. Ah, hoje também aprendi uma coisa muito importante: não se deve esbarrar o cotovelo num copo com Coca-Cola".

Não sei escrever a meu respeito, a não ser fazendo piadas infames. Clássica forma de auto-defesa.

Escrito por Inagaki às 22h11
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Vasculhando e-mails antigos, encontrei uma mensagem que até poderia virar post (e virou, dã). Ela foi publicada em uma lista de discussão que supostamente serviria como um refúgio seguro para confissões entre amigos próximos. Obviamente, em vez de falar sobre minha vida, redireciono a mensagem para falar de outras paragens. O e-mail é de 27 de novembro de 2000 (mais de dez anos após minha tentativa desastrada de manter um diário).

"Insensatos & Insensatas,

Que alívio. Após uma semana soterrado por trabalhos & provas & matérias de tv & programas de radiojornalismo para fazer, o pior já passou. Depois da tempestade, a bonança. E, falando nisso, Deus, como eu tomei chuva na semana passada. Como sempre acontece, quando levo guarda-chuva, não chove; mas quando o esqueço... Bem, o fato é que, quarta-feira passada, o toró despencou enquanto eu estava dentro do ônibus de volta do banco para casa. Pra piorar a coisa, eu tinha dormido e acordei dois pontos depois do meu. Foi uma das caminhadas mais longas de toda a minha vida.

Normalmente eu até gosto de andar sob chuva. Mas, depois de uma semana cansativa, com os neurônios pedindo arrego e o corpo malemolente feito lagartixa debaixo de sol, eu só queria chegar em casa, deitar e entrar em coma por algumas abençoadas horas de sono. Infelizmente, Lei de Murphy é tiro e queda: 'não há nada que esteja ruim que não possa ser piorado'. Quando desci do ônibus, a chuva caía com raiva e vontade em Sampa City.

No começo, até esbocei tentar me proteger, colocando a pasta que sempre carrego em cima da minha cabeça. Mas caía tanta água que logo percebi a inutilidade do gesto. Não acelerei o passo, já que ia ficar ensopado correndo ou não, e resolvi aceitar toda aquela aguaceira de maneira resignada, caminhando como se não estivesse nem aí. As gotas eram densas e geladas, e corriam nas minhas costas como pequenos cubos de gelo brincando de escorregador na minha coluna. Ao contrário da chuva descrita pelo Sabbag, não havia cheiro de terra molhada. E, mesmo se tivesse, eu não o sentiria, meu nariz estava completamente entupido. Ou melhor, 'endubido'.

Enquanto caminhava, molhado e imbecil, fiquei pensando em todos os guarda-chuvas que perdi em minha vida, suficientes pra montar uma barraquinha de camelô. Recordei do maior toró que tinha tomado até então na vida, quando fui ver os Rolling Stones no Pacaembu e fiquei quase uma hora inteira sob chuva, pulando feito macaquinho com dor de barriga e cantando 'Street Fighting Man', 'Ruby Tuesday' e outros clássicos. E me convenci, definitivamente, da estupidez que é o clichê cinematográfico de mostrar homens apaixonados sofrendo por amor debaixo de chuva. Porra, eu tô com o coração partido e ainda fico me martirizando debaixo do maior dos torós?! Se é pra sofrer, prefiro ficar deitado em minha caminha aconchegante, de preferência debaixo do edredon e ouvindo música sob a penumbra silenciosa da noite.

A segunda vez que tomei chuva nesta semana foi no último sábado, quando fui ao Espaço Unibanco assistir a 'Dançando no Escuro', de Lars Von Trier, que pertence àquela estirpe de filmes que costumo classificar com a cotação '5 lenços'.

E, olha, 'Dançando no Escuro' é um filme que cobra um preço emocional muito grande para assisti-lo. Porque, em seus 134 minutos, o espectador testemunhará um calvário digno de Cristo, honrando a tradição das heroínas cinematográficas de diretores como Dreyer, Mizoguchi e Truffaut; de mulheres sofridas e de garra, as únicas capazes de suportar toda a dureza do mundo em nome de um ideal maior. E o filme é repleto de cenas de cortar a alma, como quando a personagem da Björk começa a trabalhar durante os dois turnos do dia na fábrica, e volta para casa tateando os trilhos da estrada de ferro com os pés, porque já não consegue mais enxergar.

Por meio das imagens de uma mulher cega, Von Trier recusa os apelos melodramáticos tão típicos de Hollywood. E se choramos neste filme, é porque há identificação na dor e na grandeza transcendente da personagem incorporada por Björk. As seqüências musicais do filme, que em longas como 'A Noviça Rebelde' simbolizavam alegria, em 'Dançando no Escuro' ponteiam as seqüências mais angustiantes da narrativa, quando a operária busca refúgio da realidade cada vez mais opressora.

Se lágrimas representam o desabafo de emoções contidas, então 'Dançando no Escuro' pode ser interpretado como uma catarse, ao melhor estilo das tragédias gregas, capaz de fazer com que o choro, colhido nos olhos dos espectadores ao final de cada sessão, seja a exteriorização da tristeza que sentimos em um mundo cada vez mais cínico e desprovido de humanidade. Ou, remetendo àquele e-mail genial da Tati, um mundo repleto de gente nadando na superfície, e de pessoas enfurnadas em suas conchinhas.

E assim, de digressão em digressão, concluo meu desabafo semanal com os versos do Raulzito: 'a chuva quando cai na terra nos traz coisas do céu'.

Beijabraços,

Alexandre"

Escrito por Inagaki às 22h10
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"Quem é vivo sempre desaparece".
(Barão de Itararé)

Escrito por Inagaki às 21h36
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