Pensar Enlouquece. Pense Nisto.



Tartamudeio


Penso em ruivas xipófagas, em guitarras queimando como incensos, em Humphrey Bogart mascando chicletes, no céu iridescente e nos desejos que eu e você sussurávamos um para o outro quando víamos estrelas cadentes relampagueando a noite de um outubro perdido, quando éramos dois adolescentes cercados de espinhas e dúvidas existenciais por todos os lados, receosos do mundo, mas repletos de impulsos juvenis.

Penso em Thelonius Monk morando em uma casa de Lego, em metáforas despojadas e versos sobre abóboras flutuantes, em Cheech e Chong cantando sem sucesso as garotas de um videokê, e que depois da torrente de nãos recebidos terminavam a noite masturbando-se um ao outro. Penso nas gargalhadas gostosas que demos imaginando a cena, na sua risada crepitante que alimentava o fogo das estrelas, em você sentada de cócoras acendendo um cigarro atrás do outro, enquanto eu via a fumaça subir ao céu desenhando efígies de presidentes cassados e trompetistas mortos.

Penso em avestruzes enterrando suas cabeças no deserto australiano, no destino dos siriris depois que perdem as asas, na fúria dos meteoros e no medo de viver. Penso em tonéis de azeite, nos afluentes do Amazonas, na catadupa de idéias desconexas que vêm como uma enxurrada, rompendo os diques da clareza num mar de interrogações. Penso no uniforme do Coringa, na maleta xadrez do Gato Félix, no Linus esperando a noite inteira pela Grande Abóbora como se fosse Godot, nos robôs de Isaac Babel, nos filmes inacabados de Orson Welles. Penso em filmes iugoslavos com legendas em sânscrito, e em nós dois socando pregos.

Penso na raiz cúbica de 270773, no significado de "klaatu barada niktu", na escalação do Guarani em 1978, na cabeça de Robespierre depois da decapitação, no brilho dos olhos de James Joyce ao encontrar a calcinha suja de Nora. Penso em amoras amassadas, em vinicultores chupando uvas e deixando-as secar ao sol, para vendê-las depois como passas. Penso no último mergulho de Jeff Buckley, em Thelma e Louise dando-se as mãos antes de voar para o nada, na cadela Laika latindo para a surdez das estrelas.

Penso no medo que tenho de dançarinos irlandeses e contorcionistas de circo, em quadrinhos velhos de Carl Barks, em melodias tonitruantes, no silêncio de John Cage. Penso em você pedindo provas de amor, na risada que dei ao ler que um homem foi flagrado trepando com um frango congelado, em minhas tergiversações dispersas, em seus olhos dardejando indiferença, em Ian Curtis pendurado pela corda que o enforcou, na etiqueta presa ao dedão de Marilyn Monroe no necrotério de Los Angeles, em carpideiras sorridentes e nas piadas bestas que sempre extraíam um sorriso do seu rosto, mas que já não tinham o mesmo efeito.

Penso em Pasárgada, em Hiroshima, em Yoknapatawpha, em Cracatoa, em Atlântida, em Patópolis, em São Paulo. Penso no encontro de Kublai Khan com Marco Pólo. Penso em olhos de ímã e versos que rimam. Recordo você: tudo penso, e nada falo.

Escrito por Inagaki às 11h21
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Geração Copy-and-Paste


As interpretações literais cometidas por muitos leitores da crônica "A Audácia", em que mestre Luis Fernando Veríssimo critica com fina ironia as repercussões do episódio em que Lula tomou um gole do vinho Romanée-Conti, provam que as pessoas não sabem ler. Entrelinhas, sutilezas e ironias simplesmente passam ao largo da vasta maioria de alfabetizados, que sabem discernir a letra "A" da letra "D", mas compreendem bulhufas acerca da interpretação correta de textos.

A Internet possui sua parcela de culpa nesse processo de emburrecimento interpretativo. Pois, se de um lado trouxe uma bem-vinda revalorização da palavra escrita através da difusão de e-mails, webzines e blogs, por outro viés é a responsável pela criação de uma geração de leitores incapazes de extrair significados entrelinhados em um texto mais trabalhado. É uma leva de internautas alimentados pela papinha do copy-and-paste, que reproduzem />O mundo me soa mais verossímil agora.

Escrito por Inagaki às 11h20
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Clique aqui para aprender a dança do capeta!

Até que demorou. Alguns paranóicos a la Oliver Stone acusam a canção "Ragatanga", do grupo Rouge, de disseminar mensagens satânicas em suas letras. Segundo esses beócios, o neologismo "aserehe" seria uma corruptela da expressão "eu sou herege". Atentem para o refrão:

Aserehe ra de re
De hebe tu de jebere seibiunouva mahabi
An de bugui an de buididipi


Hum. Pensando bem, será de todo implausível concluir que dessa vez eles acertaram na mosca? Afinal de contas, uma letra que fala em "hebe", "jebere" e "buididipi"... Sei não. Há quem diga que, se você ouvir "Ragatanga" de trás para frente, é possível discernir mensagens como "dólar a cinco reais", "celacanto provoca maremoto" e "Robert Johnson é rei".

Por dúvida das vias, convém desconfiar. Esses sucessos, por mais horrendos que sejam, grudam em nossos ouvidos como malditos Super Bonders do pop-chiclete. Vai saber se Louis Cypher não andou fazendo umas parcerias musicais por aí... =)

UPDATE: Graças a uma dica deixada pelo Edney nos comentários, taí o esclarecimento definitivo: o refrão de "Ragatanga" nada mais é do que uma versão embromation society da letra de "Rapper's Delight", gravada pelo grupo de rap Gang Sugarhill. Escarafunchadores de mensagens subliminares, sosseguem os fachos: confiram a letra original aqui, e voltem a dormir em paz.

Escrito por Inagaki às 06h11
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Esta nova ferramenta do Toplinks é uma mão na roda para saber a quantas anda a repercussão do seu blog. A propósito: obrigado a todos que me divulgam por aí!

Escrito por Inagaki às 22h22
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Pensar, mais do que enlouquecer, abunda a cabeça das gentes de idéias...

A psique masculina, por Ziraldo.

Escrito por Inagaki às 01h42
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Geração Copy-and-Paste


As interpretações literais cometidas por muitos leitores da crônica "A Audácia", em que frases como se lessem um teleprompter (e dão forward em qualquer texto que encontram por aí), mas são inaptos na arte de articular idéias inéditas a partir da leitura de um texto. Como resultado da não-qualificação desses receptores, somos cada vez mais obrigados a recorrer à muleta dos emoticons para dizer ao leitor: - cara, isto aqui é apenas uma piada, não me leve a sério! :)

Na língua espanhola, cada frase interrogativa é iniciada com o sinal gráfico do ponto de interrogação ao contrário (¿), com o intuito de antecipar ao leitor a entonação correta que ele deve seguir ao ler determinado texto. Imagino que num futuro não muito distante algo similar necessite ser criado, a fim de alertar os leitores sobre possíveis ironias contidas em cada parágrafo.

Será um momento de glória para a humanidade.

Escrito por Inagaki às 01h27
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Era uma vez um rapaz que sonhava em ingressar na carreira musical. Pensava ele: se a Xuxa, o Latino e o Tião Macalé gravaram discos, por que não eu, que sou quase tão desafinado quanto eles? Na época em que trabalhava como gerente da Blockbuster, cheguei a reunir alguns malucos sem-noção, e formamos um grupo com o singelo nome de Old Kids on the Block (fosse hoje, chamar-se-ia New Kids on the Blog, ho ho). Eu tocava bateria e escrevia as letras, que tinham nomes singelos como "Xipófagos de Amor". Infelizmente o mundo não estava preparado para o nosso som. Dessa época, guardo em gavetas empoeiradas algumas das músicas que compus, como esta que transcrevo abaixo, ins-pirada por um velho sucesso de Peninha (uma das influências seminais de nosso grupo, junto com Rolling Stones, Iron Maiden e Barros de Alencar).


Teu Amor é Como um Alien Dentro de Mim

Tudo começou como uma brincadeira
Que foi crescendo, crescendo, crescendo, crescendo...
E hoje eu me acho
Completamente perdido

Estou andando em círculos pra ver se me encontro
Minha cabeça gira e eu fico ainda mais tonto
E tudo isso porque
Estou amando você

Quantos versos mais eu devo compor
Para demonstrar um grande amor?
Sei que devo estar sendo até piegas
Mas todos que amam são meio bregas

REFRÃO:

Teu amor é como um alien dentro de mim
Que me come e me rasga mas eu gosto mesmo assim
Sei que você deve achar que esse é um lance masô
Mas o que parece insano eu chamo de amor

Escrito por Inagaki às 08h48
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Imagem originalmente criada pela agência DM9DDB para uma propaganda de catchup da Parmalat, merecidamente premiada no Festival de Cannes.

Clima desgraçado em Sampa City. Bons eram os tempos em que havia uma época certa para cada estação do ano. Atualmente, as quatro estações aparecem em um dia só. De manhã é um calor infernal, daqueles de transformar o cérebro de qualquer um em Geleca. Tudo é sol. Mas eis que uma e outra nuvem surge, como quem não quer nada. Languidamente se espreguiçam no céu, e parecem ser tão inofensivas quanto seu vovô. Ledo engano: é só você pôr os pés na rua, e um pé d'água cai na sua cabeça (e sempre chove quando esqueço meu guarda-chuva). Mas é tempestade de verão. Logo o sol reaparece, junto com o calor desgracento e o ar insuportavelmente abafado. Mas o dia ainda não acabou: ainda haverá tempo para ventar, garoar, trovejar, esfriar e ensolarar novamente. Não entendo como ainda não peguei uma pneumonia.

Mas o pior é na hora de dormir. Se me cubro, sou flambado em fogo baixo e constante. Se durmo descoberto, viro fast-food de pernilongo. Peço, pois, a compreensão dos leitores deste blog. Com o clima mais volúvel que minha irmã na TPM, não consigo escrever nada que preste. Meus neurônios andam malemolentes, e pediram arrego. Esta página virou Sessão da Tarde: só dá reprise.

Escrito por Inagaki às 23h38
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Sampa


Sampa - duras ruas caóticas e deslineares
Sampa - sintaxe confusa de sonhos e sons
Sampa - olhares montagem controle remoto
Sampa - broto cinza de crescimento desconexo
Em tuas esquinas me perco e me reencontro
Monstro de gentilezas insuspeitadas
Peito forjado em luz e arabescos
Teu luar anêmico fura o céu sem estrelas
E observa impassível os homens cansados
Sampa, teus sinais verdes são escoamentos de gente
Teus ônibus cheios são viagens redentoras
Nas filas de banco pensando em nada
Pensando pensando pensando e nada
Parques de concreto e lutas abstratas
Putas e pivetes famintos na esquina
Praças, latrinas abertas ao público
Sampa - pútrida, mas tão bela cidade
Sampa que amo e suporto
O silêncio incômodo dos elevadores
A música dispersa das paixões sem espelho
Bocas amargas de palavras recolhidas
E a solidão realçada pela multidão
O vento da madrugada na saída do bar
O azul do céu quando nasce a manhã
A beleza inesperada de tua aurora
Como inesperado é o sorriso banhado em sol e esperança
Uma queda e um reerguer-se contínuos
Sampa, meu coração e minhas angústias
E caminham apressados carregando suas dores
Caminham apressados como se fugissem
Como se pudessem fugir

(publicado originalmente na revista eletrônica NAO-TIL, edição 67)

Escrito por Inagaki às 22h55
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O primeiro fansign a gente nunca esquece...

Cumpadi André "Marmota", um dos mais fiéis visitantes de Pensar Enlouquece, criou um fansign dedicado a este modesto blog que vos escreve. Valeu, mermão!

Escrito por Inagaki às 22h29
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