Pensar Enlouquece. Pense Nisto.



De vírus, bunda quadrada e esqueletos dançantes

Nos últimos dias a Internet anda mais lenta que funcionário público fazendo corpo mole em uma repartição na Bahia, e tudo por conta de uma nova leva de vírus capitaneada pelo W32.Mydoom.B@mm, esse bichinho malicioso que possui como característica mais perniciosa o fato de falsificar o remetente da mensagem enviada. Olha só a malandragem do filho-da-mãe: o tal do MyDoom, uma vez instalado em um computador infectado, varre a lista de endereços em busca de e-mails que são aleatoriamente utilizados pelo vírus para se auto-enviar usando endereços de terceiros como falsos remetentes. Em conseqüência disso, minha caixa postal foi invadida nos últimos dias por mensagens automáticas de provedores e programas de antivírus notificando que e-mails que eu nunca passei na vida não haviam sido entregues porque estavam contaminados.

A primeira atitude que tomei, logicamente, foi de passar tudo quanto é programa antivírus em meu winchester. Perdi horas acionando o Norton, o VirusScan e o HouseCall (antivírus online e gratuito) até descobrir as características desse MyDoom, esse bichinho 171 que me fez jogar tempo fora em busca de uma contaminação que inexistia em meu micro. E aí eu me pergunto: qual a razão de ser dessa excrescência virtual, que fez com que ficássemos com a bunda quadrada de tanto chá de cadeira, enquanto sites eram morosamente carregados no tráfego estupidamente lento de uma rede estupidamente apinhada de e-mails contaminados? Enquanto especialistas especulam que o vírus poderia ser criação do crime organizado russo, o colunista do jornal O Globo Carlos Alberto Teixeira, a partir de alguns questionamentos, teceu uma hipótese interessante:

"E aí eu pergunto, qual é a primeira coisa que alguém assim assustado vai fazer? Óbvio: providenciar um programa antivírus para ter certeza que está limpo. Bem, acho que não preciso ir adiante, conjecturando quem seriam os maiores interessados em propagar um contágio mundial arrasador com estas características tão específicas, né?"

Por dúvida das vias, recomendo a todos: jamais aceitem balas e attachments de estranhos, principalmente se eles vierem em e-mails com assuntos como "Mail Delivery System", "Hi" e "Server Report".

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Em um caso no mínimo preocupante, o blog de Matusalém Matusca no Blogger Brasil foi apagado sem a menor explicação (e olhem que ele é assinante da Globo.com). Menos mal que a múmia mais querida da blogosfera, (ir)responsável pelos gifs animados acima, voltou, desta vez em http://matusca.blogspot.com, trazendo a imperdível edição nº 2 d'O Sarcófago (a primeira revista virtual em formato de post). Contudo, o episódio serviu para que as pulgas atrás de minha orelha se reproduzissem em frenética orgia. Até quando poderemos usufruir em paz dos serviços do Blogger Brasil?

Escrito por Inagaki às 20h57
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450 anos e 2 dias

Foto de Cristiano Mascaro.

Só mesmo um fotógrafo como Cristiano Mascaro é capaz de extrair beleza de uma cidade tão embotada, vilipendiada e soturna como São Paulo. Eu, que moro nesta barafunda urbanisticamente desarticulada há mais de 20 anos, já estou mais do que saturado com esta metrópole de estressados que correm pra lá e pra cá feito coelhinhos movidos a inércia, pilhas Duracell e contas a vencer no bojo de seus cheques especiais.

Carlito Maia escreveu aquela que é a melhor definição de meus sentimentos com relação a esta cidade: "Amo São Paulo com todo o ódio". Não foi difícil passar ao largo de todo esse clima artificial de oba-oba em torno dos 450 anos de Sumpaulo, cuja maior atração foi a inauguração de uma certa "fonte multimídia flutuante" instalada dentro do poluído lago do Parque do Ibirapuera, como se águas que dançam coloridas fossem capazes de amainar esta verdadeira fábrica de ansiosos, taquicardíacos e insones, cuja poluição constipa minhas narinas e faz com que as quatro estações do ano se manifestem num dia só (em um típico dia paulistano, chove, venta, faz sol, depois garoa, esquenta e esfria novamente: minha bronquite agradece embevecida).

Minha ranhetice com relação à efeméride só fez aumentar depois que li a matéria publicada pela Veja São Paulo, que elenca 450 supostos bons motivos para amar esta metrópole. Pudera: segundo a reportagem, a razão 25 é saber que "temos a prefeita mais chique do Brasil, com um interminável guarda-roupa atualizado com o que o mundo da moda oferece de melhor - sapatos Salvatore Ferragamo, tênis Chanel, vestidos Kenzo...". Que bom: da próxima vez que eu for pagar as próximas prestações das taxas de lixo e IPTU generosamente reajustadas pela gestão de dona Marta Suplicy, certamente me refestelarei consolado em saber o quão elegante é a nossa prefeita... Em tempo: ainda segundo a Veja SP, o motivo 245 para amarmos Sampa City é o fato de que nossas filiais da Tiffany & Co. são as únicas no mundo que possibilitam a aquisição de um colar de 650 mil reais em até três vezes sem juros no cartão de crédito. Ô lôco, meu!

E como é difícil amar a São Paulo do Minhocão, do Largo 13 de Maio, das fiações expostas, dos outdoors onipresentes, da estátua do Borba Gato, dos muros pichados, das Marginais congestionadas, da Praça do Patriarca ou dos anúncios de fachadas que empesteiam minhas retinas diariamente sem dó nem KY, fomentando uma inveja danada daqueles que vislumbram o Corcovado em vez dos anúncios da Valentina Caran Imóveis (e eu espero que nenhum leitor utilize minhas considerações para tergiversar sobre a acéfala rivalidade entre paulistas e cariocas, assunto mais modorrento na face da Terra depois da vida sexual do papa).

Mas, por incrível que pareça, quem mora em São Paulo tem orgulho do lugar onde vive. Porque, a despeito de nossas 2.018 favelas e dois milhões de desempregados, esta é a cidade das esfihas do Jáber, da pizza do Castelões, da Fnac de Pinheiros, do chope do Pirajá, do espeto misto do Sujinho, dos barzinhos da Vila Madalena, do X-salada do Burdog, do yakissoba do chinês da Paulista, do filé com alho do Moraes, do Extra 24 horas do Itaim, do Masp, dos cinemas do Shopping Jardim Sul, do fim de noite em um Fran's Café, das luzes amareladas do centro velho, das caminhadas pelo campus da USP, do churrasco no Fogo de Chão, da banca de cachorro-quente em frente ao Teatro Oficina, do pastel da feira em frente ao Pacaembu, dos papos em uma mesa no Café Piu-Piu, Rascal ou na prainha da Paulista, das prateleiras de discos na Galeria do Rock, das noites de solteiro que findavam no Love Story às nove da manhã, das horas pensativo em um banco na Rodoviária do Tietê, do filme visto no bar do Cinesesc, do pôr-de-sol no campus da Faap, da elegância indiscreta das nossas meninas, do jornal de domingo que chega às bancas na tarde de sábado, das pessoas que conheço e que amo e que vivem em meio a esta balbúrdia de prosódias e etnias que compõem a São Paulo que amodeio, odeioamo com todo o meu masoquismo, perplexidade e esperança.

Escrito por Inagaki às 03h11
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Comentando comentários

Após quatro dias e 127 comentários, eis as músicas mais tristes do mundo segundo os leitores deste blog:

1) Pedaço de Mim (Chico Buarque) - 6 citações;
2) Vento no Litoral (Legião Urbana) e Atrás da Porta (Chico Buarque & Francis Hime) - 5 citações;
3) Ne Me Quitte Pas (Jacques Brel) - 4 citações;
4) Meu Mundo Caiu (Maysa), Chico Mineiro (Tonico & Francisco Ribeiro), Exit Music (For A Film) (Radiohead), Everybody Hurts (R.E.M.) e Trocando em Miúdos (Chico Buarque & Francis Hime) - 3 citações.

Diversos intérpretes foram lembrados, como Chet Baker (se bem que com aquela voz até samba-enredo da Salgueiro ganharia contornos melancólicos), Billie Holiday (a história das gravações do álbum "Lady in Satin", diga-se de passagem, renderia um post dos mais taciturnos), Nat King Cole, Roberto Carlos e Diana Krall (mas senti falta de Leonard Cohen e Nina Simone). Já esperava que bandas como Smiths, Joy Division e Portishead recebessem citações, mas Bobmacjack teve a manha de desencavar Tô Tristão, faixa do primeiro álbum do Casseta & Planeta, "Preto com um Buraco no Meio" de 1988.

Outras boas lembranças: Kazu citou Slowdive, uma das "prediletas da casa". Arq falou muito apropriadamente de Apaga o Fogo, Mané, de Adoniran Barbosa, se bem que tristeza (no... vá lá, bom sentido) para mim é ouvir Iracema na gravação da Clara Nunes. Matias, leitor atento de "Eu Não Sou Cachorro Não", o imprescindível livro de Paulo César de Araújo sobre a música brega brasileira nos tempos de ditadura, mandou bem ao lembrar de Nelson Ned, o "Pequeno Gigante da Canção". Ana Paula, por sua vez, citou muito apropriadamente Boas Festas de Assis Valente ("Mas o meu Papai Noel não vem/ Com certeza já morreu/ Ou então Felicidade/ É brinquedo que não tem"), enquanto Anny Shoegazer veio com A Vida Não Presta, pérola oitentista de Léo Jaime.

Para encerrar todo esse chororô musical, gostaria de recordar mais duas gravações. A primeira, de Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, numa interpretação pra lá de sorumbática que Caetano Veloso cometeu em 1969, em um álbum gravado em Londres na época em que estava exilado. A outra é Couro de Boi, toada sertaneja composta por Teddy Vieira e Palmeira. Na versão de Tião Carreiro & Pardinho, é para mim a mais dolorida história de família narrada na história da MPB ao lado do churrasquinho da mãe do Teixeirinha.

Last but not least, destaco duas dicas de links passadas nos comentários. Flavia Ballvé-Boudou indicou um texto de Renato Vivacqua intitulado "Quero Chorar, Não Tenho Lágrimas", sobre as letras mais trágicas, melodramáticas e/ou mórbidas do cancioneiro tupinambá. Por fim, após tanta melancolia, dor-de-cotovelo e versos rimando "dor" com "amor", que tal conferir a dica passada por Bobmacjack (que por sua vez encontrou aqui), Top 100 Gay Classics?

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A respeito da minha resenha de Encontros e Desencontros, sobre o trecho em que comento a aparição de microfones na tela, Nemo Nox, que reside em Washington DC, esclarece: "Muitos projetores no Brasil usam formatos de janela diferentes dos usados aqui. Resultado: os microfones que ficam fora de quadro para o público dos EUA acabam entrando em cena para o público brasileiro".

A propósito, vale a pena lembrar que o blog de Nemo, Por um Punhado de Pixels, é um dos cinco indicados (e o único representante brasileiro) dos 2004 Bloggies na categoria Melhor Weblog Latino-Americano, repetindo o feito do brasiliense Marcos Amorim, finalista da mesma categoria em 2001. Para votar em Por um Punhado de Pixels, clique aqui.

Em tempo: você já votou em Pensar Enlouquece no iBest 2004? :)

Escrito por Inagaki às 13h54
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Uma história trágica, uma piada sacana e cinco trilhas para noites insones

Outro dia vi no MegaZona (que por sua vez encontrou aqui) uma pergunta instigante, que repasso a quem me lê: qual é a música mais triste do mundo?

Antes de dar a minha resposta (trapaceei e listei não uma, mas cinco canções para cortar os pulsos), quero escrever um pouco a respeito de uma composição que caiu no folclore devido à sua letra, digamos, singela: "Coração de Luto", de Victor Mateus Teixeira, popularmente conhecido como Teixeirinha. Não que a considere a mais triste de todos os tempos, mas a história de sua criação certamente é uma das mais trágicas.

Pobre Teixeirinha.Teixeirinha, nascido no interior do Rio Grande do Sul em 3 de março de 1927, teve uma infância pobre. Perdeu o pai, que trabalhava como carreteiro, aos 6 anos de idade. Mas, como bobagem pouca é desgraça, sofreria nova tragédia pessoal apenas três anos mais tarde. Sua mãe possuía o costume de queimar o lixo da casa nos fundos do seu quintal. Entretanto, devido a uma crise epilética sofrida enquanto a fogueira ainda crepitava, dona Ledurina perdeu o controle das chamas. E foi assim que, com apenas 9 anos, o menino Victor perdeu sua mãe vitimada por um incêndio. Órfão, fez de tudo um pouco para sobreviver: trabalhou em granjas, vendeu doces e jornais, carregou malas em portas de pensões, dormiu noites e noites debaixo de viadutos nas ruas de Porto Alegre.

Nosso herói, após assimilar tantos socos dados pela vida, aprendeu a tocar violão sozinho e foi tentar a carreira artística. Apresentou-se em circos, churrascarias, emissoras de rádio no interior dos pampas. Em 1959, finalmente gravou seu primeiro disco, mas o sucesso só viria a partir do quarto álbum. "Coração de Luto", composição inspirada na morte de dona Ledurina, era apenas uma das faixas do lado B. Porém, na base do boca-a-boca, começou a ser veiculada por rádios do interior de SP, e de lá acabou por contagiar todo o Brasil, tornando-se o maior sucesso do ano de 1961 com a impressionante cifra de mais de 1 milhão de discos vendidos. Não parou por aí: "Coração de Luto" foi regravada em 21 idiomas, e seu sucesso gerou até um filme homônimo, o primeiro de uma série de longas-metragens que Teixeirinha viria a produzir inspirado pelas histórias de suas canções (repetindo os passos de outro astro da canção popular brasileira, Vicente Celestino).

Quem já ouviu a canção não esquece da trágica e sentimental narrativa de sua letra, a começar pelos versos iniciais:

O maior golpe do mundo
Que eu tive na minha vida
Foi quando com nove anos
Perdi minha mãe querida
Morreu queimada no fogo
Morte triste dolorida
Que fez a minha mãezinha
Dar o adeus da despedida


Brasileiro é um povo emotivo, mas também é deveras sacana. E não tardou muito para que o sucesso de Teixeirinha ganhasse a infame alcunha de "Churrasquinho de Mãe". Reza a lenda, aliás, que certa apresentadora de TV, ao entrevistar o músico gaúcho, mal-assessorada por sua produção cometeu a infeliz pergunta: "Que história é essa de churrasquinho?". Acometido por um violento ataque de choro, Teixeirinha mal conseguiu balbuciar a explicação para a piada de duvidoso gosto, enquanto a tal entrevistadora encolhia-se em sua poltrona. Desconheço a veracidade dessa gafe, assim como os rumores de que a versão em inglês desta canção é conhecida como "Barbecue of Mother" (ah, a humanidade). Em tempo: Teixeirinha morreu em 4 de dezembro de 1985, deixando 9 filhos e mais de 700 músicas gravadas.

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Antes que eu me esqueça, eis a minha lista de Cinco Músicas para Embalar Tardes Depressivas. Ah sim: não se esqueça de aproveitar o espaço dos comentários para deixar a sua opinião sobre qual seria a canção mais triste de todos os tempos.

- I'm A Fool To Want You (Billie Holiday)
- True Love Waits (Radiohead)
- Vento no Litoral (Legião Urbana)
- Way to Blue (Nick Drake)
- Little Girl Blue (Janis Joplin)

Escrito por Inagaki às 20h32
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Infâmias da fama

Você é daqueles que se deleitam vendo mulheres mostrarem os peitos ou xingarem umas às outras de vaca, piranha e outros animais menos cotados no Big Brother Brasil? Pois saiba que na Alemanha diversão mesmo é ver um participante de reality show ser preso em um caixão de vidro na companhia de... 30 mil baratas.

Daniel e as baratas.Daniel Küblböck, 18, é um jovem cantor que, ao lado de mais nove incautos, topou participar de um reality show chamado "Ich bin ein Star - Holt mich hier raus" ("Sou uma Estrela - Me Tirem Daqui!"). O programa funciona da seguinte maneira: os dez desgraçados são mandados para uma selva na Austrália, onde devem permanecer por duas semanas. A cada dia, um deles é designado pela audiência para ser submetido a uma prova (eufemismo dos produtores do programa para "tortura com requintes de sadismo"). O público votou em Daniel, e eis que nosso malfadado cantor foi obrigado a ficar deitado em um caixão de vidro enquanto cerca de 30 mil baratas dançaram macarena sobre seu corpo por exatamente 1 minuto e 6 segundos.

Aparentemente quem assistiu (a audiência do programa chegou a 6,28 milhões de telespectadores) gostou tanto de ver Küblböck sofrer que o escolheu novamente, pela segunda vez em três dias, para participar de uma nova "prova". Enquanto câmeras flagravam en generosos closes as lágrimas desesperadas de Daniel ao saber da notícia, os produtores do programa enchiam um enorme cubo de vidro. A foto que saiu em todos os jornais alemães.Munido de uma máscara de mergulho e um snorkel, o jovem cantor foi obrigado a mergulhar sua cabeça no aquário, sabendo apenas que iria se deparar com algumas singelas surpresas dentro da água. Primeiro, apareceram peixinhos dourados; tudo zen. Depois, enguias; nada que não desse para encarar. Porém, quando surgiram aranhas aquáticas, Daniel surtou, pôs a cabeça para fora do aquário e saiu correndo em altos prantos. O aspirante à fama conseguiu, enfim, ganhar as manchetes de todos os jornais alemães. Resta saber se conseguirá voltar a cantar depois de ter sido submetido a tantos traumas...

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Por falar em cantores participantes de reality shows, não posso deixar de citar a nova empreitada de Kléber Bambam, "artista multimídia" que, além de dançarino de axé e comediante do programa Turma do Didi, agora resolveu atacar na área musical. O nome não poderia ser mais infame: Bambam & As Pedritas. Não tenho a menor idéia da gravadora que cometeu o despautério de contratá-lo, incompetente até mesmo no erro de timing do lançamento: se tivesse lançado o álbum na época do Natal, certamente teria emplacado o número 1 na lista dos presentes de Inimigo Secreto.

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Mais do mesmo: a versão britânica do sádico reality show alemão terá John Lydon, ex-vocalista das bandas Sex Pistols e P.I.L., como um de seus participantes. Essa, nem o Malcolm McLaren poderia imaginar...

Escrito por Inagaki às 21h00
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Meninos eu vi

Murray e Johansson.

Encontros e Desencontros (Frei Caneca Unibanco Arteplex 3 - 17/01/2004)

Há tempos não via no cinema americano um filme tão feliz na delicada arte de expressar o indizível. Em Encontros e Desencontros (Lost in Translation, EUA, 2003), dirigido e roteirizado por Sofia Coppola, os personagens de Bill Murray e Scarlett Johansson são dois estrangeiros. Americanos no Japão, perdem-se na tentativa de se comunicar com os locais. Ao mesmo tempo, qual Mersault no livro de Camus, sentem-se deslocados na vida: estranham seus respectivos casamentos, a falta de perspectivas profissionais, a dificuldade de expressar sentimentos.

Murray interpreta Bob Harris, astro decadente de cinema contratado para gravar um comercial de uísque por US$ 2 milhões preso a um casamento de 25 anos redivivo exclusivamente por conta dos filhos e da inércia. Johansson é Charlotte, esposa de um fútil fotógrafo de celebridades graduada em Filosofia, mas sem a menor idéia do que fará na vida. Hospedados no mesmo hotel em Tóquio, Bob e Charlotte encontram-se em uma das muitas noites de insônia e tornam-se amigos. As situações que vivem juntos são aparentemente banais: jantar em um restaurante japonês, desafinações em um karaokê, caminhadas por ruas infestadas de neons. São cenas nas quais os diálogos são entremeados por aqueles momentos de silêncio que de quando em quando pairam entre duas pessoas (você percebe o quanto se sente bem com alguém quando é capaz de permanecer calado sem o incômodo dos silêncios desconfortáveis, e o filme de Sofia Coppola traduz com felicidade esses instantes). E assim, paulatinamente o espectador de Encontros e Desencontros testemunha a evolução do relacionamento de duas pessoas que, apesar da distância de idades e interesses, transforma-se em algo além de uma amizade passageira, sem que seja preciso explicitar esse momento por meio de diálogos pueris ou declarações arrebatadas.

Em seu segundo longa-metriu em todos os jornais alemães." align=left>Munido de uma máscara de mergulho e um snorkel, o jovem cantor foi obrigado a mergulhar sua cabeça no aquário, sabendo apenas que iria se deparar com algumas singelas surpresas dentro da água. Primeiro, apareceram peixinhos dourados; tudo zen. Depois, enguias; nada que não desse para encarar. Porém, quando surgiram aranhas aquáticas, Daniel surtou, pôs a cabeça para fora do aquário e saiu correndo em altos prantos. O aspirante à fama conseguiu, enfim, ganhar as manchetes de todos os jornais alemães. Resta saber se conseguirá voltar a cantar depois de agem, Sofia (que antes havia dirigido a adaptação apenas correta de Virgens Suicidas, o magnífico romance de Jeffrey Eugenides) prova em definitivo que não merece mais ser conhecida apenas como a filha de Francis Ford Coppola. Após sua bombardeada participação como atriz em O Poderoso Chefão III (substituindo às pressas Winona Ryder no papel da filha de Michael Corleone), Sofia enfim consolida-se no mesmo ofício do pai, graças também às irretocáveis interpretações de Bill Murray e Scarlett Johansson, desde já minhas torcidas pessoais para as indicações do Oscar 2004.

O único senão que faço a Encontros e Desencontros diz respeito à desconcertante freqüência com que microfones aparecem na tela. Se fosse uma adaptação de Brecht, ok, eu poderia justificar tais lapsos com o papo de "distanciamento do espectador", afirmando que eles estavam lá como lembretes de que tudo que vemos na tela não passa de ficção (vide também E La Nave Va, de Fellini). Mas não é o caso, e olhem que nem em curtas amadores de faculdade vi tantos microfones vazarem no enquadramento, o que me faz imaginar se o erro não teria sido da projeção do longa na sala de cinema. É como se eu lesse um romance impecavelmente narrado e de repente me deparasse com uma palavra como "pensamento" grafada com cê-cedilha; não anula seus méritos artísticos, mas prejudica em muito a fruição da obra.

Deslizes técnicos à parte, não posso deixar de destacar o belíssimo final de Encontros e Desencontros. O sussurro entre os personagens de Murray e Johansson, ininteligível aos espectadores, traduz uma cumplicidade que não pode, nem deve ser compartilhada por terceiros.

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P.S.: Hoje, a partir das 15:30, serão anunciados os indicados ao Alfred 2003, a maior premiação de cinema da blogosfera brasileira (na verdade uma brincadeira cinéfila organizada pelo jornalista Chico Foreman). Na condição de um dos participantes da Liga dos Blogues Cinematográficos, fui incumbido da tarefa de selecionar os melhores de 2003 em diversas categorias. Confiram os meus votos e também dos demais votantes clicando aqui, a partir das três e meia da tarde de hoje, e aproveitem para dar os seus pitacos.

Em tempo, não resisto em adiantar meu Top 5 em uma das categorias, Cena do Ano:

- Diálogo entre Virginia Woolf e marido na estação de trem - As Horas
- Wladyslaw Szpilman tocando piano para o nazista - O Pianista
- Seqüência da auto-estrada - Matrix Reloaded
- Exibição do vídeo recontando a história da queda do Muro de Berlim - Adeus, Lênin
- Striptease da personagem de Rebecca Romijn-Stamos - Femme Fatale

Escrito por Inagaki às 12h37
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Dedinhos, pirraça e tubaína

Quando vi a foto de Dale Hersh pela primeira vez, não pude deixar de me lembrar da clássica imagem do Tio Sam. Depois, a estação FM instalada em meu cérebro pôs para tocar "Dedinhos", indefectível canção que marcará para sempre a biografia de Eliana, apresentadora de TV conhecida por anunciar seus fins de relacionamento em chamadas de certa revista sobre celebridades, do tipo "Eliana rompe namoro e curte fossa na Ilha de Caras". Mas tergiverso, tergiverso. Convido-lhes, pois, a seguir a bolinha pulando e cantar junto comigo:

E o coro brada: Porco capitalista! Gringo arrogante! Tô de mal, deixa um pouco pro Natal, e também pro Carnaval!A história se repete como farsa, ainda por cima estrelada por Dercy Gonçalves.    Dedos médios,
    Dedos médios,

    Onde estão?
    Aqui estão!

    Eles se saúdam,
    Eles se saúdam,

    E se vão,
    E se vão...


Ah, essa minha maldita memória trash. Mas enfim, o fato é que toda essa queremela em cima da tal da reciprocidade e do piloto da American Airlines já está saturando nossos embotados neurônios. Ainda é válido, porém, transcrever as opiniões do caryorker Fábio Sampaio sobre o assunto:

"A questão central é o revanchismo em sua forma mais asinina ora sendo praticado. O sistema deles (EUA) é antipático, déspota e discriminatório, porém funciona segundo o objetivo traçado por eles. Todos sabemos que esse sistema não objetiva apenas prevenir contra terrorismo mas também contra a imigração ilegal. O Brasil coloca um sistema 'para inglês ver' cujo objetivo é exclusivamente fazer pirraça; draga recursos do cidadão e não tem serventia pois não funciona. Façam um sistema sério com a tecnologia adequada que terão o meu apoio a despeito da questão de reciprocidade. Ou por acaso irão procurar manualmente nas fichas todas cada vez que um americano 'suspeito' desembarcar?"

Sobre o singelo ato do piloto da American Airlines, a dica de leitura é "Inclusão Digital é Isso Aí", texto de mestre Ruy Goiaba. Ah, sim: surgiu também um blog exclusivamente dedicado ao assunto, intitulado Autoridades Americanas Arrogantes (o título resume todo o seu conteúdo), recomendável às dezessete pessoas que prometeram trocar Coca-Cola por tubaína, Senhor dos Anéis por Amarelo Manga e McDonald's por Habib's desde a guerra do Iraque, e mantêm firmes seus boicotes até hoje.

Escrito por Inagaki às 12h37
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Blogger Brasil x UOL Blog: quem dá mais?

Desde que o UOL passou a abrigar o Blog do Tas, em setembro de 2003, era de se esperar que o mais conhecido portal da Web tupiniquim também começasse a investir no filão cada vez maior dos blogs. Pois eis que hoje finalmente abriram-se as comportas do UOL Blog. Como toda novidade no mercado, aterrissa com um pacote atraente de serviços: comentários, humor do dia, hospedagem de imagens. Por enquanto, qualquer internauta, inclusive os não-assinantes do UOL, está livre para criar seu weblog. E mais: em breve o UOL promete oferecer a possibilidade da transferência de todas as mensagens e arquivos de blogs de outros sistemas de publicação para lá.

Não custa nada (por enquanto) fazer um test drive. Você quer dar uma espiadela em como é uma página no UOL Blog? Sinta-se, pois, à vontade para conhecer Pensar Enlouquece II - A Volta dos que Não Foram. E vamos ver quanto tempo tardará até que surjam as primeiras mensagens do tipo "sistema em manutenção, estamos trabalhando para melhor servi-lo"...

UPDATE:



Patilene foi a primeira usuária que conheço a reportar a malfadada mensagem acima. Ah, déjà vu...

Escrito por Inagaki às 19h12
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Top 10 iBest Blog!

Pensar Enlouquece, Pense Nisto é um dos dez finalistas do prêmio iBest 2004. Antes de mais nada, muito obrigado a todos que votaram em mim! Só que agora começa outra boa disputa, desta vez por uma vaga no Top 3. Preciso, portanto, assumir mais uma vez a face de candidato em busca de votos (prometo fazer apenas uma promessa: não beijarei criancinhas) e pedir novamente a sua ajuda para chegar à próxima etapa.

Se você quiser me dar uma força em busca dos 10 mil reais oferecidos ao site vencedor na votação popular (como diria Falcão, "dinheiro não é tudo, mas é 100%"), a casa penhorada agradece: basta clicar aqui e seguir as instruções da página. Em tempo: todos que votarem estarão concorrendo a uma Chevrolet Montana Sport 0 Km!

Cumpra, pois, seu dever cívico. Para depositar seu voto na urna, basta um clique: vote em Pensar Enlouquece no iBest 2004!

Escrito por Inagaki às 23h22
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E se...?

Costumo dizer que você só conhece verdadeiramente alguém entre quatro paredes, e não é só porque imagino que existam muitos senhores austeros que trajam cuecas com estampa do Piu-Piu sob suas vestes, pra não dizer coisas piores. Pois é entre quatro paredes que uma pessoa, afastada do superego das convenções sociais, está finalmente livre para se despir, literalmente e metaforicamente, de todas as suas máscaras para enfim agir de acordo com seus desejos. Bobviamente, esta teoria não se aplica a pessoas confinadas em um reality show.

Por outro lado, Luis Fernando Verissimo sustenta que uma pessoa só se conhece mesmo quando está numa "situação Aladim", ou seja, quando defrontada com um pedido ou uma escolha que pode mudar sua vida e/ou o mundo. O que você faria se ganhasse um milhão de dólares? E se você pudesse ficar rico simplesmente tocando uma campainha que em contrapartida fará com que um chinês lá do outro lado do mundo morra? E se o Robert Redford chega na sua casa e oferece 1 milhão de dólares para dormir com a sua esposa? Ou ainda: e se o Robert Redford pagasse essa bagatela para provar do seu fiofó?

Ficções, dias de ócio e digressões de mesa de bar são feitas disso: perguntas hipotéticas. E pensar que eu tergiverso, tergiverso com o simples intuito de comentar a especulação que tomou conta das conversas da semana: "o que você faria se estivesse no Big Brother?". Bem, após assistir aos primeiros programas, só posso afirmar duas coisas:

a) evitaria ao máximo proferir um "uhuuuuuuuuu", interjeição predileta de onze entre dez participantes de reality shows;

b) aproveitaria o espaço em cadeia nacional para recomendar o novo livro do Jeffrey Eugenides, interromperia o Pedro Bial para uma leitura em voz alta de "O Artista Inconfessável" do João Cabral, divulgaria o documentário Brazil Beyond Citizen Kane, conversaria com o pessoal sobre nouvelle vague, quadrinhos da Vertigo, Dylan Thomas e os irmãos Gershwin. Ou então, vai saber, contaminado pelo ambiente lobotomizante, deixaria de lado todas essas boas intenções e passaria a pontuar minhas conversas com expressões como "caraca mermão", "tipo assim, mil coisas", "aêêê galera" e, é claro, "uhuuuuuuuuuuu". Na segunda hipótese, perdoaria de antemão a todos aqueles que resolvessem excluir de seus blogs os links para cá, principalmente se algum de vocês me flagrasse correndo esbaforido em uma esteira ao balbuciar frases como "saia, banha, que este corpo não te pertence mais!"

P.S.: Ainda não respondi nem metade dos meus e-mails atrasados, pfuf.

Escrito por Inagaki às 01h31
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Memória

Hoje um dos maiores compositores de toda a história da MPB, o carioca Lamartine de Azeredo Babo, faria 100 anos. Prazer em conhecer? Não seja blasfemo, pequeno gafanhoto! Você certamente já cantarolou alguma das músicas de mestre Lalá, como a junina "Chegou a Hora da Fogueira" (Chegou a hora da fogueira/ É noite de São João/ O céu fica todo iluminado/ Fica o céu todo estrelado/ Pintadinho de balão), a tropicalista avant la lettre "História do Brasil" (Quem foi que inventou o Brasil?/ Foi seu Cabral/ No dia 21 de abril/ Dois meses depois do Carnaval), as sertanejas "No Rancho Fundo" e "Serra da Boa Esperança" (Nós os poetas erramos/ Porque rimamos também/ Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem) ou as marchas carnavalescas "O Teu Cabelo Não Nega" e "Linda Morena" (Teu coração é uma espécie/ De pensão familiar/ À beira-mar/ Ó moreninha/ Não alugues tudo, não/ Deixa ao menos o porão/ Pra eu morar).

Inventivo e irreverente, a influência de Lamartine Babo não se restringe à MPB: cronistas e humoristas como Stanislaw Ponte Preta e José Simão possuem enorme dívida para com essa figura sui generis, expert em criar trocadilhos e compor melodias de grande beleza. De quebra, é o compositor dos hinos dos maiores clubes de futebol do Rio de Janeiro (embora Lalá confessasse um carinho especial pelo hino do América, seu time de coração). Ou seja, realmente todo brasileiro conhece ao menos um verso de Lamartine.

Uma vez que todo blog posta uma letra de música ao menos uma vez em sua existência, aproveito o ensejo para publicar os versos da nonsense "Canção Para Inglês Ver", obra-prima do esculhacho tropical que rima termos em inglês, francês e português. Em tempos de globalização e reciprocidade pra gringo ver, não poderia haver letra mais adequada.

I love you, forget iskaine
Maine Itapiru
Forget five Underwood
I shell
No bonde Silva Manuel

I love you to have Steven Via Catumby
Independence lá do Paraguai
Studebaker, Jaceguai!

Oh yes, my glass
Salada de alface
Fly Tox my till
Oh Standard Oil
Forget not me!

I love you
Abacaxi, uísque of chuchu
Malacacheta Independence Day
No street-flesh me estrepei...
Elixir de inhame
Reclame de andaime
Mon Paris je t'aime
Sorvete de creme
Oh yes my very goodnight

Double fight, isso parece uma canção do oeste
Coisas horríveis lá do far-west
Do Tomas Veiga com manteiga!
My sanduíche, eu nunca fui Paulo Escriche
Meu nome é Lasky and Claud
John Philip Canaud
Light and Power
Companhia Limitada...

I... You!
The boy scout avec boi zebu
Lawrence Tibbett com feijão tchu tchu
Trem de cozinha não é trem azul!


* * * * *

Uma frase:

"Bem-aventurados os caolhos, porque só vêem a metade da maldade".

(Rogério Sganzerla, cineasta falecido ontem aos 57 anos, diretor de filmes como "O Bandido da Luz Vermelha")

Escrito por Inagaki às 23h38
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Blog RSSficado e (quase) fechado para balanço

Aparentemente consegui RSSficar o meu blog, com uma preciosa ajuda do FAQ do InterNey. Se você acha que um espírito de nerd baixou em mim e pensa que estou falando grego ou algum dialeto típico desses fãs de Star Trek e RPG, clique aqui para desanuviar as idéias e conhecer um pouco mais sobre esse tal de RSS. A propósito: eu mesmo não sei se fiz a coisa certa, e se houver algum expert no assunto solicito o favor de verificar se cometi algum despautério em meu código-fonte (cartas para a redação). As versões RSS/XML de Pensar Enlouquece estão disponíveis aqui, aqui e aqui.

* * * * *

A tira acima, de mestre Laerte, ilustra uma breve pausa que darei nas atualizações deste blog. Nada de retumbante: preciso priorizar meus frilas e responder a todos os e-mails que recebi desde o Natal. Empilhados em meu winchester, as mensagens acumuladas formam uma Torre de Pisa que ameaça desabar a qualquer instante. Enquanto isso, deixo-lhes com um poeminha que escrevi há algum tempo, cujo resultado me deixou satisfeito. Volto em breve. :)

* * * * *

Sete Faces

I

Amar fragiliza
Mais do que eu gostaria de sentir
Mais do que eu me permitiria
Admitir.

Antes eu era mais livre
Mais estúpido
Mais inocente
Quiçá mais feliz.

Agora estou em tuas mãos:
Sentes o peso?
Sentes minhas aflições?
Minhas angústias caladas?

Estou em tuas mãos:
Estou tão frágil,
Estou mais feliz,
Mais temeroso deste mundo.

Cuida bem de ti,
Cuida bem de mim.
Porque já não sei me cuidar.

Cuida bem do meu coração
Que está atrelado ao teu riso;
Quando vigio teu sono
Tenho toda a paz do mundo.

Cuida bem de ti, meu amor,
Que já não sei mais
Viver sem teus olhos.

Amor tem sete faces,
e todas me amedrontam.
O mundo, sete mil faces,
e só uma me ilumina.

II

Vida:
piada amarga que ri de nós.

Amor:
válvula de escape à qual recorremos com desespero e esperança.

III

Três palavras tão repetidas,
tão banalizadas.
Por que me é tão difícil dizê-las?

IV

Somos náufragos do mesmo barco
Anjos traídos em busca da mesma cruz
Duas cabeças ocas que não pensam
Que buscam pela mesma efêmera bênção

Gestos gastos e mal fingidos
Sempre as mesmas rimas e metáforas
Piadas ridas, beijos babados
Como ecos vagos, vácuos de passado

Nossos olhos estão prenhes de farpas
Faíscas que rebrilham em gumes de frases
Vagas rompendo com falésias e mares
Traduzidas em francas ironias lapidares

Com amarga sabedoria e dissabor
Constatamos quão vãs foram nossas palavras
Míticas mímicas, joguetes do amor
Que nos enredou em trevas e trovas

Compositores da mesma canção
Dançarinos da mesma coreografia
Amantes no mesmo colchão
Sorrisos na mesma fotografia

Parceiros da mesma eterna solidão

V

Noites de insônia e ciúmes estúpidos.
Promessas, promessas voláteis e inúteis.
Flores. Bombons. Jantares. Motéis. Traições.
Vozes enferrujadas:
- Você me ama? Você me ama? Você me ama?
O terror indelével das desculpas decoradas:
- Você merece alguém melhor. Não quero estragar nossa amizade.
O sofrimento descascando, despojando o coração.

Amor é um disco riscado de blues.
Amor arma a arapuca, esfrega as mãos, afia os dentes.
Amor faz de nossos corações marionetes,
e gelatina de nossos cérebros.
Amor é foda.

O mundo não é para inocentes.

VI

Eterno o tempo inscrito no centro do teu olhar verde prata e céu
Beleza que ao tempo desacata o teu sorriso sombra de um véu
Desenho de giz o vento apagou mas e a cicatriz de um amor?
Restrito jogo sem regra ou juiz que fere alegra seduz desnorteia
Feliz de quem resistir decifrar tua teia estrela em noite negra

VII

Amar é jogar os dados na mesa.
Uns querem apenas amizade.
Outros, sexo.
Alguns entram para o mosteiro.
Amar emburrece. Não amar também.

Amar é mito.
Mito é aquela mulher que nunca se entregará para você,
e, mesmo se o fizesse, não aconteceria nada,
porque na hora H você broxa.

Amar sem ser amado
é combate ingrato e sem tréguas;
coiote apaixonado
perseguindo o papa-léguas.

Amar platonicamente
é amar apenas do pescoço para cima:
que desperdício!

Amar é sangrar uma torrente
de formigas vermelhas e raivosas.
Pois apaixonar-se
é construir uma imagem da pessoa amada
sem avisá-la antes.

Amar é renunciar
a muitas coisas,
mas também a maior transcendência
que podemos almejar
nesta vida.

Amar não é bicho de sete cabeças;
no mínimo, tem umas sete mil.

Escrito por Inagaki às 21h33
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Melhores de 2003 - II

• Música Nacional:

Sim, foi um ano de bons lançamentos. Não me desmentem álbuns como Áudio Retrato de Leoni (compositor dos mais subestimados sobre quem ainda escreverei um post), A Letra A de Nando Reis (que mantém excelente site pessoal), a estréia irregular, porém de qualidade, de Maria Rita Mariano (que regravou magistralmente "Encontros e Despedidas" da dupla Milton Nascimento & Fernando Brant) e Cosmotron, talvez o melhor CD de toda a carreira do Skank. Mas, instado a destacar uma canção dentre todas as gravadas em 2003, não hesito em afirmar: "O Silêncio de Iara", composição de Guinga com letra de Luis Felipe Gama, foi o grande legado musical do ano.

Consta que Chico Buarque, que esteve afastado do violão nos últimos dois anos escrevendo seu romance Budapeste, ao ouvir "O Silêncio de Iara" pela primeira vez telefonou para Guinga e vaticinou: "É a música do século". Não é exagero: a MPB por enquanto ainda não cunhou nenhuma música mais bela neste século XXI. Anteriormente gravada por Simone Guimarães, "O Silêncio de Iara" ganhou seu registro definitivo no álbum Noturno Copacabana, sexto da carreira de Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, melhor conhecido por seu apelido de infância, Guinga.

Nascido em 1950, gravou seu primeiro álbum-solo (Simples e Absurdo) apenas em 1991, graças a uma iniciativa da dupla Ivan Lins e Vitor Martins, que criaram a gravadora Velas com o intuito principal de dar ao compositor carioca a oportunidade de finalmente gravar suas próprias composições. No mais, absurdos de um país que não dá chances a alguns de seus maiores talentos (e notem que Guinga está na cena desde os anos 60, tendo participado de registros históricos como ao tocar violão na primeira versão de "As Rosas Não Falam" na voz de Cartola).

Solenemente ignorado por nossas rádios, movidas a flashbacks e jabá das gravadoras, Guinga começou a ser reconhecido pelo grande público nos anos 90, graças a músicas como "Catavento e Girassol" (na interpretação de Leila Pinheiro) e "Você, Você" (parceria com Chico Buarque). Que a eloqüência de "O Silêncio de Iara" possibilite a mais gente tomar conhecimento da obra de Guinga, atualmente o maior compositor brasileiro.

Escrito por Inagaki às 00h25
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Melhores de 2003 - I

À semelhança da Marina W., começarei a publicar aqui minhas seleções de melhores de 2003 em diversas categorias escolhidas de acordo com o acaso, a começar por...

• Novidade Gastronômica:

Em um ano marcado por novidades esdrúxulas nas gôndolas de supermercados como o Ruffles Twist, a Fanta Morango, o Bis Laranja, o wafer Salclic nos sabores queijo, presunto e misto, o guaraná Kuat com laranja e o Toddynho Napolitano, não foi difícil apontar o melhor de todos os lançamentos:

Sonho de Valsa é um clássico dos bombons. Quem nunca se deleitou com este waffer recheado com massa de castanha de caju, e coberto por duas camadas de chocolate? Todo brasileiro que mora no exterior certamente sente falta deste bombom que é comercializado desde 1938 pela Lacta. Pois não é que 65 anos depois a fábrica de chocolates paulista finalmente descobriu o ovo de Colombo e lançou o Sonho de Valsa em sua versão chocolate branco?

Há quem possa dizer: oras, mas já não havia o Ouro Branco? Sim, mas além deste ter outro recheio (flocos de arroz com chocolate), faltava-lhe ainda o charme irremediável da embalagem do Sonho de Valsa, um bombom embalado por celofane colorido, sobre o qual é estampada a figura de um casal que dança envolto por notas musicais extraídas da partitura de uma valsa de Strauss. Ignore as imitações grosseiras que grassam por aí, como o Serenata de Amor da Garoto e o Sedução da Nestlé; pois, como diria Jardel, "clássico é clássico e vice-versa".



Escrito por Inagaki às 19h27
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Post pós-réveillon

Comi lentilha, mas esqueci de guardar as sementes de romã, como se fizessem alguma diferença.

Os balões que antes estavam pregados no teto murcharam e agora fazem companhia aos meus pés no chão.

Êta diazinho bunda. Chuva digna de dia de Finados.

Mulheres usam calcinhas novas para dar sorte. Vale a mesma coisa para homens? Tantufas, passei o ano novo com cueca velha e fingindo indiferença a essas superstições bestas, mas que quase todo mundo segue.

Os prédios que apinham o horizonte das imediações da Paulista impediram-nos de vislumbrar qualquer coisa dos fogos que estralejavam no céu. Ah, essa falta de horizontes é o que mata.

E no entanto foi um réveillon bacana, ao lado de uma pessoa com quem compartilhei e ainda compartilharei muitas histórias pra contar.

(enquanto isso, o jukebox da minha cabeça insiste em cantarolar os mesmos versos de Raul Seixas:

"Todo jornal que eu leio
Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh baby, oh baby
A gente ainda nem começou
Baby, isso só vai dar certo
Se você ficar perto
"

... e não poderia haver trilha sonora mais adequada nem versos mais apropriados.)

Baby, a gente ainda nem começou.

Escrito por Inagaki às 14h16
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